sábado, 28 de novembro de 2015

"O Clube Dumas", de Arturo Pérez-Reverte

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Se há algo que, para mim, este livro mostra é que Arturo Pérez-Reverte é um exímio narrador: nele se constrói um enredo cativante - ainda que algo delirante - para o leitor comum (o autor inspira-se assumidamente na fluidez mas também na criação de suspense dos folhetins oitocentistas), mas simultaneamente rico em intertextualidades literárias (as referências literárias - desde logo Dumas, mas também Poe, Christie, Eça, entre vários outros - são constantes) que podem agradar a outro tipo de leitor. O Clube Dumas é uma espécie de policial bibliófilo fundido com a história de aventuras; julgo que não é abusivo dizer que o autor presta, em certa medida, homenagem a O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, para além do sempre omnipresente Os Três Mosqueteiros.
Posto isto, devo assumir que este livro ficou aquém do esperado. Não conhecendo a adaptação cinematográfica da autoria de Roman Polanski, li este livro com a bonomia praticamente isenta de ideias feitas de quem apenas leu um livro do autor - neste caso O Mestre de Esgrima. E, assim, se nos primeiros capítulos, o livro teve bastante encanto para este leitor (a pesquisa de Lucas Corso, um "mercenário da bibliofilia, um caçador de livros por conta alheia", relativa à autenticidade de um manuscrito de Dumas), gradualmente, à medida em que cresceu o peso da investigação em torno de uma obra de demonologia, comecei a recear que o autor caísse na tentação do sobrenatural (tão visível nesses bestsellers da moda, que misturam suspense e aventura com com as mais variadas confabulações esotéricas, conspirações de igrejas, etc.). Infelizmente, e especialmente depois de ler o décimo capítulo (com a entrada de um estranho personagem feminino), vi confirmado o meu receio - ainda que o autor deixe as coisas suficientemente vagas até praticamente ao fim. O livro não é verosímil, mas isso nem é importante - não é necessário ser-se em literatura; quando entrou em cena o domínio das ditas "ciências do oculto" tive esperança que Pérez-Reverte tivesse um posição de distanciamento irónico como Umberto Eco em O Pêndulo de Foucault (obra-prima em que se olha o mundo artificioso dos cultores acríticos do oculto, do misterioso, do esotérico, do místico).
Reconheço que este livro tem mais potencial - é mais complexo e inteligente - que O Mestre de Esgrima, anteriormente lido; no entanto, como pessoalmente não tenho interesse por esse tão comercial (mas perfeitamente banal e por vezes ridículo) universo que enche prateleiras nas livrarias sob a denominação de fantástico, não posso negar o meu desapontamento.

sábado, 21 de novembro de 2015

"Número Zero", de Umberto Eco

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Umberto Eco é uma personalidade que admiro - como medievalista, como pensador, como escritor. Por isso, é sempre com alguma curiosidade que recebo a notícia de uma nova publicação sua. Quando este Número Zero foi editado em Portugal, tomei nota para posterior leitura; eis que, em virtude de um empréstimo, pude finalmente lê-lo .
À partida posso dizer que genericamente me agradou, apesar de estar longe das suas obras melhores (e de maior fôlego e alcance intelectual). De certo modo, achei que Número Zero segue um pouco a obsessão de Eco pelo problema da verdade, das manipulações (seleções, omissões, interpretações pouco inocentes, etc.) da realidade, da criação de confabulações, teorias da conspiração, mitomanias. Considerando os livros que li e o que conheço da obra do autor, este romance tem muitos pontos de contacto com O Pêndulo de Foucault, obra que me fascinou imenso (e que, com Eco o notou, quase antecipou a moda desse subgénero do policial de inícios deste século - os códigos disto e daquilo, os manuscritos qualquer coisa, etc., ricos em misturar histrionicamente a confabulação com um frágil e deturpado conhecimento histórico para assim alcançar elevadas vendas). Tal como esse romance, Número Zero parece dizer-nos que por mais estulta que seja uma ideia ou toda uma teoria, há sempre quem estultamente (isto é, sem qualquer espirito crítico) se renda. O personagem Braggadocio talvez tenha sido vítima da sua teoria - nada nos garante, realmente, se assim aconteceu; mas, afinal, não o serão todos os crédulos?

domingo, 15 de novembro de 2015

"Chet Baker pensa na sua arte", de Enrique Vila-Matas

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Chet Baker pensa na sua arte não é exatamente um romance - e o fantástico (é mesmo isso que me vai fascinando na obra de Vila-Matas) é que tal não constitui desvantagem nenhuma. Se, por exemplo, o meu mui amado Bartleby & Companhia me encanta pela deambulação ensaística no mundo dos "escritores do não" (os autores de uma só obra,  por exemplo); se Doutor Pasavento (livro que, aliás, muito me agradaria poder reler) me fascinou pela comunicação quase filosófica com a obra de Robert Walser; se, mais recentemente, me senti convidado/desafiado a ler Ulisses, de James Joyce (de quem apenas lera Gente de Dublin), após o seu Dublinesca;  este Chet Baker pensa na sua arte (a aqui a referência ao trompetista americano é praticamente estética e quase acidental) agradou-me por questionar os cânones do romance (Enrique Vila-Matas pensa na sua arte?), mas também por me desafiar de novo a abordar certas obras e autores (é longa a lista: Gombrowicz, Gadda, Gaddis, por exemplo - engraçado: todos nome começados por "G").
Assumidamente intelectual, esta obra é, a meu ver, caracterizada pela desconstrução: o autor recorre em permanência à reflexão sobre a literatura (tradição/cânone versus rutura/experimentação);. Aparentemente para Vila-Matas escrever é uma forma de homenagem às Letras; por tal razão não me parece despicienda ou pedante a constante citação às suas referências culturais (onde se incluem os portugueses Pessoa, Lobo Antunes e Herberto Helder) - Joyce, autor do literariamente radical (e por isso mesmo possivelmente intraduzível) Finnegans Wake, é apontado como ícone do extremo arrojo (em contraste com os escritores mais preocupados com "contar uma boa história").
Vila-Matas tem, de facto, sido um autor valioso no meu percurso como leitor, especialmente por me incentivar à descoberta de outros escritores "cultos"; o seu "estilo" - a sua forma de escrever - meditativa e inteligente, que funde o romanesco com o ensaístico agrada-me bastante. Não tendo este Chet Baker pensa na sua arte sido dos melhores livros que li do autor, ainda assim achei-o extremamente estimulante, desafiante, mas também (de uma forma superior e subtil) divertido.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"A Família", de Mario Puzo

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Não tenho muito a dizer sobre este livro. Ou, posto de outra forma, não me agradou. Admito que A Família possa não fazer justiça à escrita de Mario Puzo - afinal, o autor não terminou esta obra, tendo a mesma sido completada pela sua companheira Carol Gino (sem que seja possível saber até onde vai a extensão da coautoria).
Em todo o caso, Puzo, consagrado autor de histórias de máfia, embrenhou-se na sensacionalista saga (palavra que o marketing editorial passou a usar - e abusar - nos últimos anos como se tal etiqueta fosse garante de alguma coisa que não fastfood literário - perdoem-me a violência deste comentário) dos Bórgia, família que marcou a vida da Itália renascentista. Ambição, poder, corrupção, ganância, violência, luxúria, incesto: eis os ingredientes (os ingredientes certos para a produção em série de bestsellers - ou, como o colocou Alexandre O'Neill numa das suas crónicas, de "bestas céleres") da história desta família, que segundo a informação do posfácio fascinavam Puzo. A linguagem simples (monotonamente simples), as tiradas "pedagógicas" (para o leitor pouco familiarizado com a cultura renascentista não se perder), a prevalência da ação e dos diálogos fazem com que A Família seja fácil de ler (qual série televisiva, procura-se sempre prender o leitor de um capítulo para o seguinte, ora com uma intriga, com uma suspeita, com uma pontinha de sangue) - fácil a um nível demasiado primário, receio bem. Literariamente, é um obra bastante pobre. 
(Um aparte curioso, como exemplo das imprecisões históricas que o livro também contém: dificilmente um personagem de finais do século XV, inícios de XVI poderia apreciar um "vinho do Porto" - é que tal produto de excelência só terá surgido um século mais tarde...).
Apesar desta leitura frustrada, conto no futuro dar uma oportunidade ao autor. Sabendo que este não é um livro terminado, apurado, polido pelo autor (e, simultaneamente, que teve mão alheia), é arriscado colocar um anátema sobre Mario Puzo. Este livro em concreto, no entanto, parece-me a evitar.

sábado, 31 de outubro de 2015

"Os Factos. Autobiografia de um romancista", de Philip Roth

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Mais do que interesse autobiográfico, para este Os Factos. Autobiografia de um romancista vale pelo seu interesse puramente literário, não exatamente por se tratar de um olhar sobre a "vida de um romancista" mas por, com elementos biográficos, refletir sobre as motivações da escrita (o modo como o autor escava, distorce e/ou recria com a imaginação memórias próprias, exagerando-as, complicando-as, tornando-as mais dramáticas e interessantes) e sobre a inevitável parcialidade de qualquer relato pretensamente autobiográfico.
Publicado em 1988 (e aparentemente escrito após um esgotamento), esta obra deambula por memórias pessoais de Roth: a sua infância durante os anos da Segunda Guerra Mundial numa família judaica de classe média; a procura de autonomia durante a sua juventude, a entrada na universidade e os seus primeiros projetos literários e sentimentais; o seu relacionamento com aquela que viria a ser a sua primeira mulher (dotada de uma personalidade amargurada, manipuladora ou até paranóica); a reação algo inflamada ao seu primeiro livro, Goodbye, Columbus, por parte da comunidade judaica; o contexto de criação de O Complexo de Portnoy, livro que lhe granjeou bastante sucesso.
O livro abre com uma "carta" de Roth ao seu personagem Nathan Zuckerman, na qual questiona se deve publicar tais memórias. Nas páginas finais, pode ler-se a resposta de Zuckerman, em que se critica o esforço de autobiografia de Roth («(...) eu não acredito em ti»), por ser seletivo e parcial (não se revelando as intencionalidades escondidas de tais seleções, por não serem claras as exclusões), por disfarçar e omitir (por pudor ou para não "magoar" os intervenientes), por falsificar e mitificar (consciente ou inconscientemente) - em suma, por ser um esforço ficcionado. «Com este livro ataste as mãos atrás das costas e tentaste escrevê-lo com os dedos dos pés.», acusa Zuckerman. Deste modo literariamente original, a meu ver, Roth faz mea culpa,  assumindo-se como um mau biografo de si mesmo (pela falta de distanciamento do objeto biografado) e assume que o seu campo é a ficção.
Felizmente para mim, ainda existe um bom número de livros do autor que ainda não li, tendo, por exemplo, reservado para o futuro O Teatro de Sabbath.

domingo, 18 de outubro de 2015

"A Casa Verde", de Mario Vargas Llosa

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Quando li História Secreta de um Romance (texto de caráter ensaístico que desvenda o que está por trás da construção de uma romance), apontei na minha listagem de leituras próximas este A Casa Verde, de Mario Vargas Llosa, livro que muitos colocam entre os mais carismáticos do autor.
Não será, eventualmente, dos seus livros mais fáceis, na medida em que Llosa entrecruza o percurso de vários personagens (Lituma, D. Anselmo, Fushía, etc.), vários locais (Piura, Santa Maria de Nieva, Amazónia) e vários tempos (dos anos vinte aos anos sessenta do século passado). Mas, apesar de poder ser um pouco mais complexo do que outras obras do mesmo autor, A Casa Verde não é propriamente um livro difícil. É, sobretudo, um livro muito bem escrito, com todo o humanismo que é característico do autor e com o extra de nos transportar em muitos momentos e de variadas maneiras para o mundo simultaneamente belo, perturbador, fascinante e misterioso da floresta Amazónia (também tratado, ainda que de um modo mais humorístico, em Pantaleão e as Visitadoras).
Pessoalmente, cada vez mais procuro livros que tenham literatura, e que não sejam mero passatempo fácil e ligeiro; a meu ver, Llosa consegue conjugar os dois aspetos de forma exemplar: por uma lado, não deixa de abordar temas populares, verdadeiramente universais, ou mesmo de entrar em exercícios de humor; mas, por outro lado, consegue ser original e muito consistente e inteligente no modo como narra ou monta os seus enredos. Feita esta declaração de intenções, findo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

"A Voz do Amor. 72 Haiku Cabalísticos / Love's Voice. 72 Kabbalistic Haiku", de Richard Zimler

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Julgo não ser muito comum um romancista lançar-se, quando a sua obra já conta com bastante títulos, na escrita e publicação poética (já o contrário não é tão me parece tão incomum). Foi, pois, com curiosidade que vi aparecer este livro bilingue de curtos poemas de Richard Zimler, autor de vários romances de cariz policial.
De acordo com as palavras introdutórias, Zimler apresenta estes 72 haiku (tantos como os nomes de Deus segundo a tradição cabalística) como um esforço de expressar o seu entendimento, resultante de alguns momentos de discernimento pessoal, sobre o significado da Cabala, não tendo qualquer pretensão de revelar uma sabedoria especial. Tal interesse pelo misticismo judeu, bem como pelo mundo sobrenatural, está, aliás, bem patente na sua obra romanesca. Assim, mais do que um livro de poesia, este curto volume será a exteriorização (honesta, sincera) de uma reflexão sobre - no fundo - o percurso interior, espiritual em busca de Deus (em certos momentos e passagens não consegui deixar de me lembrar de A Papoila e o Monge, de José Tolentino Mendonça - pesem embora as distância ao nível expressivo).
O leitor não judeu e não familiarizado com o ângulo de abordagem mas com alguma sensibilidade ainda assim encontrará - na minha opinião - alguns belos poemas, que conseguem conjugar a simplicidade com alguma (potencial) profundidade.

sábado, 10 de outubro de 2015

"D. Henrique", de Amélia Polónia

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Na sequência de Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício, de Isabel M. R. Mendes Drumond Braga, iniciei a leitura da biografia do Cardeal D. Henrique (figura de relevo na instauração da Inquisição em Portugal, recorde-se), da autoria historiadora Amélia Polónia (com quem, aliás, tive o gosto de contactar pessoalmente). Já havia lido, há algum tempo atrás, as biografias de D. Sebastião (de Maria Augusta Lima Cruz) e de D. Filipe I (de Fernando Bouza), pelo que faltava "preencher" uma lacuna.
Se é verdade que conhecia relativamente bem as linhas gerais do percurso henriquino (em especial os seus papéis como inquisidor geral, como fundador da Universidade de Évora, como regente na menoridade de D. Sebastião e, por fim, como rei), esta obra trouxe-me um conhecimento mais aprofundado do seu caráter mas também da sua atuação nos escassos dezassete meses (e num contexto especialmente complexo e conturbado - o período pós-Alcácer Quibir, de crise sucessória, de fragilidade geral do país) em que reinou. Oitavo  filho de D. Manuel e irmão de D. João III, D. Henrique nunca esteve destinado a reinar; a sua chegada ao trono foi, assim, tardia e resultou da falta de alternativa. A sua biografia está - como aliás se sublinha nas páginas iniciais - longe de se esgotar no curto período em que reinou.
Após uma sucinta mas sólida introdução em que se revisitam as imagens sobre o biografado ao longo do tempo (do relato enaltecedor à visão marcadamente negativa), autora optou por organizar a obra em quatro partes, cada uma delas divida em capítulos mais específicos. Na primeira parte, aborda-se o "homem", isto é, alguns traços do seu perfil físico e psicológico, as suas relações familiares (nas quais se inclui a sua ligação algo tensa com o sobrinho D. António, Prior do Crato), a sua casa e servidores, o seu quotidiano e a sua saúde (existe, note-se, um manancial de informação particularmente minucioso sobre o seu estado de saúde para o período em que reinou, proveniente em particular do correspondência diplomática castelhana). Na segunda, revisita-se a faceta cultural do Cardeal-rei (que gradualmente se foi alinhando com as linhas de força da Contra Reforma emanadas do Concílio Trento): a sua formação e os seus contactos com humanistas (como sejam André de Resende ou Damião de Góis; tal contacto não impediu que mais tarde estes fossem perseguidos pela Inquisição sob suspeita de heterodoxia e as suas obras censuradas e/ou proibidas); a prática de mecenato (apoiando vários estudantes, intelectuais e cientistas) e a promoção do ensino laico e eclesiástico (criando escolas e fundando a Universidade de Évora); e a escrita de obras de espiritualidade.
O percurso eclesiástico de D. Henrique é abordado na terceira parte. Destinado desde muito novo à vida religiosa, como acontecia com frequência com os filhos segundos da nobreza e da família real, D. Henrique ocupou vários cargos na cúpula da hierarquia da igreja nacional: arcebispo de Braga, Évora e Lisboa, abade de Alcobaça, cardeal, inquisidor geral, etc. Como prelado, revelou-se um zeloso reformador (moralizando a vida do clero, investindo na formação), um produtor de legislação e textos normativos e um empenhado implementador dos ditames de Trento. O seu papel na Inquisição foi, como já mencionou, bastante marcante: será ele a dar corpo à instituição, dotando-a de meios (edifícios próprios, pessoal, fontes de financiamento, etc.) e de um quadro de atuação (foi responsável pelo regimento do Santo Ofício); intolerante face à comunidade judaica e cristã-nova, foi contrário a todos e quaisquer perdões, isenções e autorizações de saída do reino; por outro lado, mostrou-se favorável ao caráter discricionário e ilimitado do poder inquisitorial (rejeita, por exemplo, que os acusados pudessem conhecer a identificação das testemunhas de acusação).
A última parte é dedicada ao percurso político-governativo de D. Henrique, dando-se destaque à regência do reino (durante a menoridade do seu sobrinho D. Sebastião e após o período de regência de D. Catarina - entre 1562 e 1568) e ao seu curto reinado (entre 1678-80). De um modo geral, a sua regência é pautada por uma gestão equilibrada do reino (guiada pela linhas definidas em cortes); ainda que tenha procurado influenciar (ou mesmo ter ascendência sobre) D. Sebastião durante a sua infância, não conseguiu evitar que este, chegado ao trono, o afastasse e seguisse o seu próprio caminho (D. Sebastião mostrou-se frequentemente pouco recetivo aos conselhos de gente mais experiente, e ficou mesmo desagradado com a oposição henriquina aos seus projetos militares). Com o desastre de Alcácer Quibir, no qual perece o jovem rei sem deixar descendência, D. Henrique sobe ao trono (foi o "rei possível") e assume um país em crise política, social e económica grave. Algumas questões marcam o seu reinado: a necessidade de resgatar os quase dez mil cativos no Norte de África (entre os quais muitos nobres das principais casas titulares), apesar dos cofres do reino estarem exauridos; o castigo dos responsáveis pelo projeto guerreiro de D. Sebastião; e a urgência em encontrar uma solução para o problema da sucessão (pense-se que o rei era clérigo e tinha 66 anos). Neste contexto, inicialmente D. Henrique procurou obter dispensa dos votos clericais para poder casar e procurar ter descendentes, mas face às pressões e obstáculos (resultantes de jogos diplomáticos contrários e da dilação papal), empenhou-se - mas sem sucesso, uma vez que morre sem ter declarado sucessor - em chegar a uma solução político-jurídica (considerando os vários candidatos existentes).
Pessoalmente, considero que a autora foi muito feliz (pela clareza e estruturação de argumentos) no modo como abordou os esforços henriquinos para resolver a questão dinástica. Apesar de conhecer razoavelmente este período, achei muito bem descrito o ambiente vivido (de trauma nacional, de histriónica procura de um desenlace para o imbróglio sucessório, de consciência do caráter provisório do reinado do biografado). Os jogos diplomático e de espionagem movidos por Filipe II - a afirmação inflexível do seu direito ao trono (e a manifesta prontidão para defender esse direito pelas armas, de necessário fosse), a compra de apoios entre nobreza e clero, as tentativas de influenciar e pressionar o rei português - são muito bem abordados nesta biografia, e concorrem para a profundidade explicativa no que respeita à atuação de D. Henrique.
Em suma, esta é uma obra problematizadora, que se esforça em ultrapassar certas ideias feitas sobre o cardeal D. Henrique (ideias essas que vinham sendo perpetuadas na historiografia - como a atribuição ao biografado da responsabilidade pela perda da independência para Castela ou como a sua pretensa ambição de poder). A crítica de fontes e a acuidade na ponderação sobre juízos históricos e interpretações várias são pontos a favor desta obra. Por fim, a linguagem é clara e objetiva, o que contribui para tornar este livro agradável de ler.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

"Estrela Distante", de Roberto Bolaño

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Na sequência de Os Detetives Selvagens - e da descoberta literária de Roberto Bolaño -, decidi ler Estrela Distante. Devo dizer que este livro me entusiasmou desde a primeira página: uma espécie de prólogo em que Bolaño remete para um livro seu anteriormente publicado (A Literatura Nazi nas Américas, obra que tenciono ler logo que me seja possível); refere um personagem de Os Detetives Selvagens (Arturo B.[elano], «(...) veterano das guerras floridas e suicida em África») como coadjuvante na escrita; e cita um dos personagens para mim mais marcantes das Ficções, de Jorge Luis Borges - Pierre Menard, o autor que queria recriar (mas sem copiar) o D. Quixote palavra por palavra, como se fosse um escritor seiscentista (!). Nesta primeira página vi eu, assim, um bom augúrio; de facto, não sai defraudado.
Tal como na obra anteriormente lida, Bolaño debruça-se sobre o mundo da Poesia, da criação literária, de jovens aspirantes a ícones das Letras, tendo como pano de fundo contexto latino-americano (nomeadamente o contexto político chileno da década de 1970). De novo, há neste livro um processo de busca, desta vez centrado no tenente Carlos Wieder (que o narrador conhecera, antes do golpe militar de Pinochet, como Alberto Ruiz-Tagle, poeta "autodidata" e frequentador de ateliês poéticos). Wieder revela-se um personagem sinistro, embora de contornos esquivos: afamado piloto de avião, escritor de enigmáticos versos no céu durante as suas exibições aéreas, assassino estudantes e jovens literatos, fotógrafo do horror, participante (através de pseudónimos vários) em obscuras revistas literárias.
Estrela Distante é um romance curto - lê-se em poucas horas -, muito bem escrito e com um enredo cativante. As referências literárias são abundantes (e estimulantes). A título de curiosidade, ilustrativa dos jogos literários de Bolanõ, refira-se que um dos personagens deste Estrela Distante pretendia fazer uma antologia da literatura nazi nas Américas; por sua vez, associa-se Carlos Wieder à conceção de "jogos de guerra", o que (julgo) remete de certa forma para o seu romance inacabado O Terceiro Reich (que ainda não li).
Bolaño é, pois, um autor que pretendo continuar a percorrer e que ouso abertamente recomendar.

sábado, 19 de setembro de 2015

"O Exílio e o Reino", de Albert Camus

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Albert Camus ocupa um lugar muito próprio no meu percurso como leitor. A minha primeira leitura de Camus - O Estrangeiro - aconteceu sem nada saber sobre o escritor e seu papel nas Letras europeias. Tinha então quinze anos e só li aquela obra por obrigação escolar: uma percentagem da avaliação da disciplina de Filosofia de 10º ano recaía na elaboração de uma ficha de leitura sobre uma das vinte ou trinta obras propostas pelo professor. A escolha de O Estrangeiro resultou de dois factos: existir na biblioteca paterna (como aliás outras das obras arroladas pelo professor) e não ser muito grande (não tendo na altura quaisquer hábitos regulares e estruturados de leitura, a dimensão do livro era fundamental). O meu pai, depois de me indicar quais os que possuía, recomendou-me o livro de Camus, como sendo uma obra interessante e acessível (tanto na linguagem simples, sem grandes enfeites, como, digamos, no seu conteúdo "filosófico").
Sem que nada o fizesse prever (ler por obrigação pode ser extremamente aborrecido), O Estrangeiro foi uma relevação para mim - entusiasmado, li-o num fôlego e (porque durante a leitura tive que encontrar informação para completar a ficha fornecida pelo professor) reli-o logo a seguir (dessa vez sem "interrupções", por puro prazer)! Nunca antes tinha lido um livro que me convocasse tão diretamente à reflexão - essa foi talvez a maior novidade -, e apesar de talvez na altura não ter entendido a narrativa em todas as suas dimensões, no espaço de pouco tempo procurei ler todos os livros de Camus existentes na biblioteca lá de casa (os principais do autor). Durante anos, acrescente-se, considerei O Estrangeiro como um dos "livros da minha vida" (e talvez, porque me marcou muito nessa fase da vida, o possa considerar ainda, mesmo que já não encerre o mesmo valor que noutros tempos).
 
(Nestas notas (quase) para mim próprio tenho a tendência para fazer um pouco a arqueologia do meu percurso como leitor. Mas como não faze-lo, se considero que isto de ler não corresponde somente a uma soma de autores e livros, mas sobretudo a um caminho?)
 
O Exílio e o Reino é um livro que comprei há longo tempo (volume poeirento, levemente queimado pelo sol, esquecido num estante pouco visível de uma livraria), e li já depois de ter passado por A Peste e A Queda. Na altura agradou-me ler os seis contos que fazem parte deste volume e que evocam, de diferentes modos, a Argélia natal do autor. Lembro-me de ter apreciado razoavelmente o livro, em especial o conto "Jonas", que relata a história de um pintor que, conhecendo a consagração artística e social, de certa forma se perde da sua arte (que antes lhe nascia tão naturalmente) bem como da sua família, caindo na alienação.
Esta releitura confirmou, de certo modo, a minha primeira impressão destes contos: apesar de se notarem os traços da escrita (o modo simples, direto, sem grandes efeitos estilísticos, mas cuidada) e do campo de reflexões de Camus (o destaque dado ao problema da angústia existencial de cada individuo), estas narrativas não entusiasmam - falta-lhe, talvez, alguma intensidade. Destaco, ainda assim, "O Hóspede", estória que achei bem construída e muito bem fechada.