terça-feira, 20 de setembro de 2016

"Maigret & A Noite da Encruzilhada", de Georges Simenon

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Após a leitura deste A Noite da Encruzilhada, dou-me feliz pela persistência: achei este livro um pouco mais cativante que os anteriormente lidos (Pietr, o Letão e O Enforcado da Igreja).
Desta feita, o comissário Maigret vê-se confrontado com um caso estranho em que ninguém é aquilo que aparenta. Depois de um longo interrogatório, Carl Andersen, um aristocrata dinamarquês, continua impassivelmente a reclamar a sua inocência: o automóvel de um vizinho aparecera na sua garagem com um morto, que trabalhava em diamantes. Maigret rapidamente segue para a Encruzilhada das Três Viúvas, onde, além de Carl Andersen, existem a casa de um agente de seguros e uma garagem; ao longo da sua investigação no local, o comissário começa a perceber que, no comportamento dos vários intervenientes, há qualquer coisa de farsa.
Na contracapa do livro faz-se referência a um filme de Jean Renoir inspirado neste livro - fiquei um pouco tentado a procurar vê-lo no futuro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Maigret & O Enforcado da Igreja", de Georges Simenon

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E duas semanas depois da "estreia", eis que reincido na leitura de Simenon. Procurei, de entre os que tinha à disposição, um dos mais antigos (Maigret & O Enforcado da Igreja, o quarto da série "Maigret", publicado em 1931), uma vez que tenciono, de quando em quando (intercalando com leituras mais exigentes), ler um dos numerosos (mais de oitenta, ao que sei) volumes dedicados às investigações do comissário da Polícia Judiciária francesa.
Tal como o livro anteriormente lido, a história (bem assim como a escrita) de Maigret & O Enforcado da Igreja é relativamente simples: desta feita, Maigret tropeça casualmente em território belga no percurso de um sujeito que lhe parece suspeito; ao segui-lo até território alemão, acaba por interferir com o percurso do tal indivíduo (trocando-lhe a maleta que carregava, contendo um fato com vestígios de sangue), levando-o ao suicídio com um tiro na boca. As investigações de Maigret levam-no à descoberta da identidade verdadeira (pois usava um nome falso) e a tropeçar em vários compatriotas seus e numa história que acontecera vários anos antes.
Pessoalmente, e de novo, não posso dizer ter ficado encantado com esta obra, por ser algo básica, tanto ao nível do enredo (da investigação), como a nível literário. Ainda assim, há que dizer que, se não foi uma leitura propriamente enriquecedora, pelo menos proporcionou-me uns momentos entretidos (superficiais?) de leitura descontraída.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Marc Bloch. Uma Vida na História", de Carole Fink

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Ao amigo Filipe
 
Esta biografia foi-me recomendada há quase vinte anos por um figurão do mundo académico numa conversa de corredor, a seguir à aula a que assistiam apenas dez alunos; após essa conversa, tropecei duas ou três vezes no livro em feiras do livro barato, mas, após folheá-lo, nunca senti suficiente interesse para comprá-lo. Talvez a capa, demasiado inexpressiva, também tivesse contribuído para a rejeição... Certo é que o descartei, como tantos e tantos livros que me foram sugeridos (ou que nalgum momento me interessaram) ao longo dos anos...
Ora, há umas semanas atrás, estando a ver um documentário em que se fazia referência à intervenção de intelectuais (sobretudo escritores e artistas plásticos) na Resistência Francesa contra a dominação nazi, lembrei-me que Marc Bloch havia sido um intelectual (neste caso um académico judeu) que morrera por ter preferido lutar como elemento da Resistência. Daí a verificar se a sua biografia, da autoria de Carole Fink, existia na biblioteca local foi apenas um momento. E, é caso para dizer, ainda bem que uma coisa levou à outra, e eu me predispus a levantar o livro, a trazê-lo para casa e a iniciar empenhadamente a leitura!
Porque Marc Bloch. Uma Vida na História é uma biografia que, a muitos títulos, vale a pena ler. O biografado é uma figura de interesse: um intelectual brilhante (enquanto historiador procurou inovar metodologicamente e acentuar a necessidade de espírito crítico, mostrando um interesse precoce pela história das mentalidades) mas também um resistente em tempos de luta pela liberdade do jugo nazi. Por outro lado, o discurso biográfico é claro, acessível e muito bem estruturado; segue uma ordem cronológica (é, assim, algo conservador), cruzando o percurso do biografado com vários níveis (mais gerais ou mais particulares) de contextualização.
A biografia de Carole Fink perpassa pelos momentos mais importantes da vida de Bloch: o seu percurso formativo como jovem historiador (filho de um historiador do período clássico, Bloch seguir-lhe-á as pisadas e, enquanto termina o seu doutoramento, já finda a guerra, ensina na refundada Universidade de Estrasburgo); o seu papel como militar na Primeira Guerra Mundial (destacou-se como oficial, chegando ao posto de capitão); as suas conquistas académicas (as suas principais obras - Os Reis Taumaturgos, A Sociedade Feudal ou Introdução à História -, são objetos de particular atenção, chamando-se atenção para as suas virtudes sem omitir as suas limitações ou mesmo fragilidades); o seu papel de cofundador dos Annales, em 1929, conjuntamente com Lucien Febvre (revista de bastante relevo no âmbito da historiografia, pelo que pretendeu inovar - saindo da história tradicional, quer era sobretudo política, procurando novas perspetivas multidisciplinares, apostando em temas contemporâneos, etc.), a sua participação na Segunda Guerra Mundial (desta vez como derrotado, tendo assistido à derrocada do exército francês e estado presente no célebre episódio da evacuação de Dunquerque), a sua passagem pela República de Vichy (território francês não ocupado pelos nazis durante a guerra, governado autoritária e cooperativamente com os alemães) e reação à política antissemita aí praticada (chegou a procurar refúgio para si e para a sua família nos Estados Unidos, mas tal nunca se concretizou; dado o seu prestígio, e apesar da segregação dos judeus, conseguiu manter-se no ensino superior até não haver mais condições); e, por fim, a sua adesão e participação na Resistência (desempenhou um cargo dirigente em Lyon, onde viveu na clandestinidade, acabando por ser capturado pela Gestapo, torturado e morto em 1944, dez dias depois do desembarque aliado na Normandia).
Por tudo o que escrevi, posso dizer que este livro foi um agradável surpresa; muito me congratulo por ter resgatado este livro, que li relativamente em pouco tempo. Ainda que tenha a noção que Introdução à História é uma obra algo divagante, talvez porque elaborada em grande medida de memória (Bloch erigiu-a sem recurso à sua biblioteca, que havia sido confiscada pelos nazis), fiquei um pouco tentado a regressar a ela. Logo se verá.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

"Maigret & Pietr, o Letão", de Georges Simenon

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Como recentemente escrevi, para além de Montalbán, tinha a intenção de conhecer a escrita de Georges Simenon, criador do famoso comissário Maigret. Comecei a desbravar território com este Pietr, o Letão, o primeiro livro de Maigret (publicado em 1929), que se desenrola em torno das ações de um criminoso internacional chegado a Paris.
Não sendo nenhuma obra maior da literatura policiária/policial, é um livro que se lê com alguma leveza: os capítulos e os parágrafos são curtos, a escrita é terra-a-terra, direta, sem grandes floreados, e privilegia-se a ação. É, portanto, uma leitura fácil, pouco exigente, que poderá adequar-se a alguns momentos do percurso deste leitor. Aguardam-me pelo menos mais 30 novelas do comissário numa biblioteca familiar para próximas leituras.

domingo, 21 de agosto de 2016

"Ar de Dylan", de Enrique Vila-Matas

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Enrique Vila-Matas ainda me pôde desiludir; não rejeito a possibilidade de ler qualquer coisa deste autor que me não agrade - como poderia rejeitá-la? Mas, até ao momento, Vila-Matas ainda não me defraudou, e isso faz com que seja um dos escritores que sigo com maior interesse e curiosidade.
Ar de Dylan desenvolve-se, como é deliciosamente recorrente em Vila-Matas, em torno de escritores (*) e intelectuais excêntricos, refletindo assim sobre a literatura e a arte. O narrador, escritor que decidira deixar de escrever, é convidado para um congresso sobre o fracasso na Suíça; aí conhece Vílnius Lancastre, cineasta fracassado (realizara uma curta metragem e propunha-se filmar toda a "história do fracasso geral do mundo") e filho do recentemente falecido escritor Juan Lancastre, com quem havia tido uma relação difícil (agora, depois do óbito, o filho via-se invadido por memórias paternas...). O narrador deixa-se fascinar pelo trágico relato do jovem com "ar de Dylan" e pela sua apetência por fracassar... e acaba por aceitar escrever uma autobiografia apócrifa de Juan Lancastre, como forma de um rebuscado ajuste de contas.
Nesta obra aparecem alguns dos temas recorrentes do autor. Por exemplo, na conversa entre Vílnius e Cláudio Aristides Maxwell, entendido em cinema americano clássico, retoma-se a discussão entre literatura convencional e literatura experimental ou de vanguarda (tão presente em Chet Baker pensa na sua arte); Vila-Matas evoca também aquilo que Max chama de literatura "híbrida", aquela que mistura romance com ensaio, artifício com realidade, criticando-lhe o intelectualismo... É por isto (por este jogos cheios de ironia) que aprecio este autor.
As referências literárias (não posso deixar de as arrolar) são mais que muitas: Joyce (sempre presente nos últimos livros que li de Vila-Matas, e que serve, enquanto autor de Ulisses, como paradigma da experimentação literária), Shakespeare (via Hamlet), Scott Fitzgerald, Nabokov, Proust, Knut Hansum (faz-se alusão a Fome, livro que tenho em casa na pilha dos livros a ler a breve-médio prazo), Joseph Roth (fiquei sugestionado a ler em breve O Leviatã), Laurence Sterne, John Banville (autor que ando para descobrir há já algum tempo), Graham Greene, Kafka, entre outros. Há também várias referências ao Oblomov, de Ivan Goncharov (que acrescentei também à minha lista de interesses literários), cuja atitude do personagem principal inspira a atitude do personagem Vílnius de Vila-Matas, voluntariamente apático e sem aspirações. (Pelo que expus sempre se comprova que os livros deste escritor catalão me levam a outros autores e obras, animando a minha curiosidade - que mais poderia querer?).

(*) Tantos são os escritores que colocam no centro dos seus romances, como protagonista e/ou narrador, outros escritores! Constato, porém, que poucos constroem alguma coisa com originalidade, graça, inteligência... Há nestes meus  medíocres textos alguns que se referem a tentativas pouco conseguidas (eventualmente também medíocres) de romancearem a realidade do escritor (escuso-me de apontar).

sábado, 20 de agosto de 2016

"Os Velhos Também Querem Viver", de Gonçalo M. Tavares

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Partindo de Alceste, de Eurípides, Gonçalo M. Tavares ensaia, com este Os Velhos Também Querem Viver, uma tentativa de recriar um episódio da mitologia grega, transpondo-o para o cerco de Sarajevo pelo exército sérvio nos anos noventa. Pessoalmente, achei um pouco gratuito este novo contexto: ser em Sarajevo durante a guerra da Bósnia nada acrescenta, nem há aparentemente qualquer justificação para tal cenário; aliás, achei a primeira estrofe do prólogo demasiado parecida com um parágrafo da Wikipedia.
Esta curta obra (eventualmente poética) trata do sacrifício de Alceste, mas também - e daí o título - da recusa de sacrifício do velho Feres. Atingido na cabeça pela bala de um sniper (em português "franco-atirador" ou "atirador furtivo"), Admeto estaria destinado a morrer; Apolo, porém, quer que ele viva e consegue que os deuses lhe comutem esse destino se houvesse alguém que por ele morresse. Ninguém mais se ofereceu (nem amigos, nem criados, nem o seu pai, Feres) a não ser a sua mulher Alceste (gesto feito por amor, ainda que Taveres não lhe dê grande expressão). O sobrevivente Admeto chora a morte de Alceste e mostra ressentimento contra o pai, por não se ter sacrificado por ele (com o argumento de este já ter vivido bastante tempo); Feres defende o seu direito à vida... Alceste acabará por ser resgatada à morte por Hércules, e assim se fecha a história.
Não deveria fazer muita diferença esta minha síntese ao enredo, pois o "modo" (isto é, a escrita) deveria justificar só por si a leitura. Porém, a meu ver, tal não acontece. As imagens utilizadas por Taveres, contrariamente a Uma Viagem à Índia (livro que, aliás, ando para reler - releitura que me permitirá confirmar este meu juízo), parecem-me algo pobres ou mesmo, lamento afirmá-lo, básicas; não encontrei nesta obra a frescura e inteligência dos jogos de linguagem e/ou de ideias que caracterizam a sua escrita. Um livro demasiado plano e pobre (apressado?) e, quase me arrisco a dizer sem ter lido a obra de Eurípides, que nada deve acrescentar ao escrito pelo autor grego.
Concluindo, não me parece dos escritos mais interessantes e conseguidos de Gonçalo M. Tavares.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Só", de António Nobre

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O meu primeiro contacto com António Nobre foi nos bancos da escola; na altura, já algo desperto para a poesia, não fiquei propriamente rendido, mas encontrei alguns pontos de interesse. Uns poucos anos mais tarde, nos inícios dos meus vintes, comprei uma edição de bolso de e fiz uma leitura mais estruturada.
Julgo que a minha impressão nessa primeira leitura de coincide em larga medida com a minha atual impressão: ainda que a poesia de António Nobre esteja, aqui e além, salpicada por laivos (ténues) de modernidade de finais de Oitocentos (o tédio, o spleen - presentes, de uma forma tão diferente, por exemplo na poesia de Baudelaire, falecido no ano de nascimento de Nobre), e apesar da graça que tem a sua muito fluída e coloquial linguagem (consigo encontrar neste aspeto alguma ligação a Cesário Verde), causa-me um certo enfado a persistência na piedade religiosa tradicional e no pendor tradicionalista e de cariz popular. De facto, não consigo achar interessante o pendor ultrarromântico da poesia de António Nobre - o seu excesso de "lua", o tom nostálgico, mas também de pieguice narcisica, de diminutivos...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

"Os Pássaros de Banguecoque", de Manuel Vázquez Montalbán

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Não demorei muito a, depois de Os Mares do Sul, regressar a Montalbán, De facto, ainda que esse primeiro livro não fosse propriamente imprescindível, a escrita do autor catalão conseguiu agradar-me a ponto de querer reincidir.
Este Os Pássaros de Banguecoque é, na minha ótica, um pouco diferente do livro lido anteriormente (ainda que também se refira - aliás, expressão presente logo na quarta página - a esse universo dos "mares do sul"). Tem, é certo, algumas da características do policial - mantém-se, por exemplo, o detetive Pepe Carvalho como protagonista (bem como a sua trupe barcelonesa - o seu criado Bicuter, a sua "amiga" Charo, etc.) e a narração de uma investigação; porém, julgo que ultrapassa um pouco o género, caindo (mais do que Os Mares do Sul, a meu ver) no puro romanesco (visível nomeadamente na riqueza de algumas descrições).
Talvez a esse aspeto não seja indiferente as linhas de força do enredo: Carvalho parte para Banguecoque em busca de Teresa Marsé (uma amiga que lhe havia pedido ajuda, dado estar em perigo), busca que, com a ajuda (ou controlo?) da polícia local e da vigilância de certas organizações criminosas, o obriga a percorrer o território tailandês. O modo como esta narrativa se encerra é, creio, simultaneamente caricata e engenhosa.
As referências literárias abundam, de novo, nesta obra (Beckett, Torrente Ballester, Adorno, Anthony Burgess, Stanley Gardner, Somerset Maugham, Kippling, entre outras); tal como livro anteriormente lido, e contrastando com as referências a escritores e obras, Pepe Carvalho tem um hábito surpreendente: casualmente dedica-se à biblioclastia, isto é, à destruição de livros. Também a gastronomia está muito presente, ou não fosse o protagonista um gastrónomo.
Por tudo o que se escreveu, este leitor julga voltar novamente a Montalbán.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

"A Questão Finkler", de Howard Jacobson

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Não sei se é muita justa (ou sequer muito favorável) a criação por parte da crítica (com a consequente e rasteirinha reprodução pelas editoras para fins comerciais) de epítetos como "o Philip Roth inglês". Podemos questionar todos os rótulos, mas há alguns que colam apesar de falsearem a realidade. Julgo que o único ponto de Howard Jacobson (e deste A Questão Finkler, único livro que li do autor) em comum com Roth será o debruçar-se sobre a comunidade judaica e sobre as suas questões identitárias.
Dito isto, penso que Howard Jacobson tem uma voz própria, bem como um estilo de escrita próprio (pelo menos muito diferente do de Roth, que continuo a considerar um dos mais notáveis), que não deixa de fazer alguma reverência a (ou estar um pouco em linha com) um certo humor british (deixem passar o estrangeirismo) - na tradição, eventualmente, de um Wilt, de Tom Sharpe, mas sem cair tão verticalmente [no vício - desculpem esta intromissão da poesia cesariniana] no nonsense.
Neste seu livro, que recebeu alguma atenção na altura em que foi publicado (especialmente por ter sido premiado com o Booker Prize), Jacobson joga com os estereótipos existentes no Ocidente em relação aos judeus, tanto as sobrevivências de pendor negativo (xenófobas, raciais, religiosas) como outras mais neutras. Julian Treslove é um tipo melancólico de meia idade, algo pesaroso quanto ao seu passado, presente e futuro, relativamente frustrado profissional, amorosa e pessoalmente. Ao ser assaltado por uma mulher, que eventualmente lhe terá chamado "judeu", Treslove vai questionar a sua identidade e tentar encontrar no "ser judeu" uma resposta para os seus anseios enquanto sofredor. O autor toca ainda nas delicadas questões do disfarçado antissemitismo sobrevivente (e mesmo crescente) nas sociedades ocidentais, da exploração excessiva (para justificar determinadas atitudes ou para vitimização e culpabilização de outros) do Holocausto pelos judeus e das atitudes de Israel para com os palestinianos.
A Questão Finkler parece-me, pois, um livro bem escrito, original e bastante consistente, o que me faz ter alguma curiosidade em ler mais alguma coisa deste autor no futuro.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"A Obra ao Negro", de Marguerite Yourcenar

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Lembro-me de ter ficado, nos meus vinte anos, bastante impressionado com a leitura deste A Obra ao Negro. Tenho ideia - mas posso estar enganado, a memória prega partidas - de ter descoberto e comprado a presente edição de bolso numa famosa (e muito turística nos últimos anos) livraria portuense; conhecia a autora de Memórias de Adriano, acerca do qual escrevera um curto ensaio académico. Ao chegar a casa, muito satisfeito com a aquisição, tomei conhecimento que já existia uma edição na biblioteca paterna - a minha "descoberta", afinal, não o era propriamente.
Há uns tempos atrás, pensando em livros que gostaria de reler a breve ou médio prazo, inclui numa curta listagem esta obra de Yourcenar; demorei alguns meses - especialmente por ter menos oportunidades de leitura -, a ir resgatar o volume depositado na sala de estar, entre um Tabucchi (autor que tenho que pensar em reler um dia destes) e um Cardoso Pires (não "um" qualquer: O Delfim, livro que muito aprecio).
E foi uma leitura absolutamente gratificante. A escrita de Marguerite Yourcenar, suportando-me nas duas obras que conheço, é tremendamente precisa e, parece-me - visto tratar-se de um romance histórico (e eu que nem aprecio romances históricos...) -, rigorosa; aliás, na nota que serve de posfácio,  a autora não só explica a génese da obra (erigida ao longo de quarenta anos, com longos intervalos), como apresenta as suas fontes de informação e inspiração e algumas opções tomadas, ora para conferir verosimilhança, ora para beneficiar a narrativa.
A ação de A Obra ao Negro desenvolve-se no século XVI, período de grandes transformações: desde logo o surgimento do movimento protestante e consequente reação católica (aquilo que usualmente se designa pela Contra-Reforma), mas também o Humanismo de raízes renascentistas e um certo racionalismo (de valorização do espírito crítico, de integração dos novos conhecimentos resultantes das descobertas marítimas, de questionamento científico para além dos dogmas mentais e religiosos - especialmente visível na ideia revolucionária de Copérnico -, etc.). Yourcenar relata-nos o percurso de Zenão: formado em teologia (estando destinado a uma carreira eclesiástica), este personagem é desde novo um espírito inquieto, estudioso, com um apurado sentido crítico, curioso (ou mesmo enciclopédico, pois interessa-se por mecânica, alquimia, fisionomia, medicina, filosofia); a sua personalidade leva-o a afastar-se do percurso clerical e a enveredar pelas ciências e pela prática da medicina. Publica algumas obras que prontamente são condenadas pela Igreja, passando a ser perseguido pela Inquisição e a viver na clandestinidade até à sua prisão... A última frase é, para mim, absolutamente marcante: «E isto é o mais longe que se pode chegar no fim de Zenão».
Se com estas palavras consegui sintetizar as linhas de força da obra, é seguro que nem sequer arranhei o verniz do interesse da obra, que reputo de bastante rica. Termino sublinhando a excelência da tradução realizada por António Ramos Lopes, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes.