sábado, 28 de janeiro de 2017

"O Último Dia dum Condenado", de Vítor Hugo

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Vítor Hugo é uma das minhas muitas falhas literárias: deste autor apenas li esta pequena obra - O Último Dia dum Condenado. Pequena e eventualmente menor em termos literários, se atentarmos a outras obras do autor, como sejam Os Miseráveis ou Nossa Senhora de Paris (que tenciono um dia ler), mas nem por isso menor em interesse.
Trata-se de um manifesto contra a pena de morte, publicado anonimamente em 1829, e que viria a gerar alguma polémica - não apenas pela controvérsia do tema, mas sobretudo pela forma algo cirúrgica (como se fosse uma "autópsia intelectual", nas palavras do narrador) como tratou os sentimentos, angústias, sofrimentos, humilhações de um condenado à morte, condenado esse acerca do qual o leitor desconhece o nome ou a sua história (além de que cometeu um crime de sangue, de que se reconhece culpado, e que deixa uma filha de três anos, a mulher e a mãe - que, afinal, também acabam por ser condenadas: à orfandade, à viuvez, à desonra).
Após conhecer a sentença, o condenado é conduzido para o cárcere de Bicêtre (no qual aguarda seis semanas até ser apreciado o seu recurso).  Aí decide escrever um relato das suas emoções, «(...) o único meio de sofrer menos com tais angústias é observá-las, e ao pintá-las distrair-me-ei delas.»; escreve para a posteridade e para fazer refletir os que à morte condenam (ainda que o seu idealismo vacile: «Quando a minha cabeça tiver sido cortada, que me interessa  que cortem outras?»). A morte está sempre presente, por é praticamente inevitável, e apesar de todos os esforços de racionalização - nomeadamente que a guilhotina garante uma morte indolor, que seria pior uma condenação a trabalhos forçados perpétuos, etc. - acaba por não conseguir afastar alguma esperança. Os que o rodeiam neste último dia de vida (os guardas, o padre, etc.) não compreendem a sua angústia - para eles, afinal, a vida continua, e aquele homem condenado pouco lhes diz...
No prefácio à edição de 1832, Hugo é brilhante: argumenta abertamente contra a ignomínia da pena de morte, justificando as razões que o levaram a escrever O Último Dia dum Condenado e porque o fez de uma forma despessoalizada (para abranger todos os condenados). Faz algumas considerações de índole social perfeitamente atuais, nomeadamente quando associa as origens miseráveis e a falta de instrução (sem que isso fosse culpa sua) à queda no crime.
É, pois, um relato espantoso, emocionalmente intenso sem cair no melodramatismo, em muitos aspetos mais realista que romântico. Seguramente uma obra a que conto regressar mais vezes.

domingo, 22 de janeiro de 2017

"Maigret & O Louco de Bergerac", de Georges Simenon

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Continuando na senda das investigações do comissário Maigret, personagem emblemático de Georges Simenon, desta vez propus-me ler Maigret & O Louco de Bergerac.
A presente investigação resulta de um acaso: estando o comissário a viajar de comboio, apercebe-se que o seu companheiro de compartimento, que até aí se mostrara agitado, se lança do comboio; imediatamente trata de o seguir, mas quando o interpela, é disparado um tiro contra si, acertando-lhe com gravidade num ombro. Após ser confundido pelas autoridades locais com o "louco" que estaria a estrangular as mulheres de Bergerac, Maigret permanece a convalescer durante duas semanas na localidade, iniciando por sua conta, e apesar de acamado, uma investigação que incide sobre as figuras que o rodeiam - o comissário sabe que uma (ou mais) dessas figuras se liga com o misterioso homem que saltara do comboio...
A narrativa resulta curiosa, em especial pela particularidade de o investigador se encontrar confinado a um quarto de hotel.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

"Requiem. Uma alucinação", de Antonio Tabucchi

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Como escrevi há relativamente pouco tempo (a propósito de A cabeça perdida de Damasceno Monteiro), tinha vontade de ler, «(...) graças à adaptação cinematográfica de Alain Tanner», Requiem. Uma alucinação, de Antonio Tabucchi. Quis o destino que tal obra existisse na biblioteca local.
Apesar de alguns pontos em comuns (um certo imaginário tabucchiano da "portugalidade" popular), Requiem é uma obra bastante diferente daquela que reli em novembro passado. Tal como se lê no título, define-se como "uma alucinação" - fica, portanto, claro o caráter onírico da narrativa; tem igualmente uma dimensão deambulatória, uma vez que o narrador se passeia por uma cidade de Lisboa algo deserta, num abafado domingo de julho. O dito narrador, que se encontrava em férias em Azeitão dormitando sobre um livro de Pessoa, combinara um encontro com o fantasma do poeta português às doze horas (!) - por muito incongruente que parece a frase que escrevi, este é o mote da obra de Tabucchi. Durante meio dia, percorre alguns locais da capital (Cemitérios dos Prazeres, uma pensão de quartos à hora, Museu Nacional de Arte Antiga, Cascais, Casa do Alentejo, Praça do Comércio) e imediações e interage com vários personagens caricatos (um drogado, um cauteleiro, um taxista, uma cigana, um pintor copista, um revisor de comboio, fantasmas de pessoas conhecidas, entre outros), até finalmente se encontrar com o poeta num restaurante - um estudioso Pessoa com o seu objeto de estudo...
O volume encerra com um texto ensaístico em que o autor procura explicar a génese do presente romance, dando especial destaque à forma como referências biográficas pessoais (a doença do pai) entraram no texto ficcional.
Requiem. Uma alucinação dificilmente poderá ser considerada uma obra literária obrigatória; mas certo é que conseguiu proporcionar-me um grande prazer. O seu caráter deambulatório, a simplicidade, as referências à cultura portuguesa (e não só) vão muito ao encontro do meu gosto. Talvez um destes dias a acrescente à minha biblioteca, pois sempre conto relê-la mais à frente.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"O Leviatã", de Joseph Roth

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Como cheguei a este livro? Sei que foi através de algum dos livros lidos no último ano (e até desconfio de dois ou três), mas não me recordo da referência exata; tomei nota do título e do autor para uma (se possível) leitura futura, e passaram-se meses até me decidir procurá-lo na biblioteca local. Constava do catálogo e, com a cota na mão, lá consegui resgatá-lo do depósito.
Comecei a lê-lo no mesmo dia em que o requisitei, acabando-o no dia seguinte. A obra trata, de certa forma, da persistência e perseguição do sonho (ou ilusão), mas também do declínio que muitas vezes se lhe segue. Nissen Piczenik, comerciante judeu de corais, conduzia - apesar do seu analfabetismo e ideias fantasiosas sobre o mar e os corais - um negócio próspero num pequeno vilarejo; quando, por fim, sai da sua terra e contacta com o mar, não só começa a perder a objetividade como se deixa seduzir pela possibilidade de vender corais artificiais... Mas o declínio não tarda.
A escrita de Roth é relativamente precisa e direta, sem grandes floreados, mas ainda assim conseguindo manter um certo tom fantasioso (que anda, evidentemente, ligado ao sonho). Esta curta novela conseguiu, de facto, encantar-me pela sua singeleza, leveza, mas também pelo seu caráter algo trágico.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Portugal, um Perfil Histórico", de Pedro Calafate

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Este curto ensaio da autoria de Pedro Calafate, Portugal, um Perfil Histórico, faz uma revisão (limitada, como desde logo o autor assume) às contínuas reinvenções do modo como nos pensamos enquanto povo e país; para tal, parte do pensamento de alguns letrados e/ou intelectuais (os que de algum modo problematizaram o tema) que marcaram a nossa História, do período medieval ao século passado. Entre as figuras referidas ou abordadas contam-se: Duarte Galvão, Zurara, Fernão Lopes, João de Barros, Camões, André de Resende, Damião de Góis, Duarte Pacheco Pereira, D. João de Castro, Pedro Nunes, Garcia da Orta, Pe. António Vieira, Verney, D. Luís da Cunha, Ribeiro Sanches, Herculano, Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Pessoa, António Sérgio e Borges de Macedo.
Os mitos fundadores (a sua criação - e a necessidade de justificar o nosso destino coletivo - mas também a sua crítica ou ultrapassagem - pense-se no "milagre de Ourique", desmistificado por Herculano), a reflexão sobre as debilidades do país (levada a cabo com especial acuidade no período das Luzes e em Oitocentos - pense-se, por exemplo, nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Quental), a procura de um rumo para o futuro (ora algo desligado do passado, como em Sérgio, ora nele enraizado, como na ideia de "Quinto Império" desenvolvida por Vieira ou Pessoa), são algumas das perspetivas ensaiadas por Pedro Calafate.
Leitura bastante curiosa e, pese embora ser uma obra muito sintética, proveitosa.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Viagens na Minha Terra", de Almeida Garrett

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Há mais de vinte anos li e estudei esta emblemática obra da literatura nacional nos bancos da escola. Se gostei? Não posso dizer que me desagradou, uma vez que, ao contrário de vários colegas de estudo, não optei por atalhar caminho e ler uns (na altura) muito populares livrinhos de síntese amarelos e pretos; Interessou-me o suficiente para ler na íntegra, não me limitando aos trechos abordados nas aulas; mas gostar-gostar... bem, na verdade não me recordo. Seguro é que, até há pouco tempo (mais concretamente até à releitura de Frei Luís de Sousa), não senti vontade de regressar a tal obra.
Eis-me agora, finalmente, de regresso a este clássico. E, em boa hora o faço: a minha cultura literária, entretanto, é um pouco mais profunda, o que, julgo, me permite desfrutar um pouco mais profundamente de algumas das faces desta obra. Desde logo, o piscar de olhos a Tristram Shandy (diretamente citado - e nomeadamente a sua página preta), obra-prima que pude conhecer este ano (e que me remete igualmente para o meu querido Brás Cubas); encontro pontos em comum não exatamente no tipo de humor (desestabilizador, provocador em Sterne), mas no tom por vezes digressivo de Garrett (com os seus apartes, comentários dirigidos ao leitor, etc. - muito mais moderados no autor português, é certo). A referência inicial às Viagens em Volta do Meu Quarto, de Xavier de Maistre, vai ao encontro de um interesse meu: eis uma obra que tenho assinalada e que pretendo, se me for possível, ler.
Tendo o autor decidido fazer uma viagem até Santarém, entretém-se a descrever com bastante graça e interesse esse seu empreendimento. Às portas do seu destino entra-se na história de Joaninha e de Carlos - e aqui há algo que se altera na obra, que passa a seguir esta novelinha ("simples e singela", nas palavras do autor, ao que este leitor acrescentaria "bacoca"). Uma historinha da carochinha, num contexto interessante mas não inteiramente aproveitado (as guerras liberais), em que não falta a avozinha coitadinha, os rouxinóis que velam o sono de Joaninha, os atos de renúncia por amor, etc., etc., etc. (perdoem-me os eventuais leitores deste texto, mas não consegui evitar chegar ao terceiro etecetera). Literariamente, não posso dizer que me encanta a novela, nem o esforço literário de, recorrendo a metáforas e adjetivos, enriquecer o drama umbilicalmente piegas...
Consigo, assim, encontrar dois tons na escrita de Garrett: um mais aristocrático, requintado, culto, fresco com uma certa ironia (a citação em grego para, como se declara, mostrar erudição) e até mesmo uma capacidade de autocrítica, nos capítulos dedicados à viagem mas também às suas reflexões; outro mais popular, limitado e diretamente romântico nos capítulos novelescos (um estilo, devo dizer, que me parece bem mais redondo, ou mesmo mais vulgar, visível, por exemplo, no abuso de alguns lugares-comuns do Romantismo).
Em suma, pesem embora os pontos que me agradaram menos, Viagens na Minha Terra é inegavelmente uma obra curiosa no panorama nacional.

(2016: balanço de um ano de leituras)

À partida, o presente ano afigurava-se mais complicado relativamente ao tempo disponível para ler: era quase certo que o volume de leituras seria menor. Assim, de facto, aconteceu, sem que, no entanto, se fizessem piores leituras.Optei por ler alguns livros mais "leves" (e curtos) - dentro do policial, do suspense, da espionagem -, mas não deixei de ler o que bem me apeteceu.
Dito isto, fazendo o destaque do melhor que li, começo referir as releituras mais estimulantes: Morte em Veneza, de Thomas Mann, Clepsidra, de Camilo Pessanha e Billy Budd, de Herman Melville. Neste conjuntinho vão, de certo maneira, três pérolas da literatura.
Ao nível das grandes descobertas, há dois livros: A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e Moby Dick, de Herman Melville. Sendo dois livros muito diferentes, fiquei com vontade de voltar a eles - por motivos também eles muito diferentes - mal os terminei. O primeiro é um livro marcante pelo que tem de dadaísmo, de nonsense, de pós-modernidade; o segundo pela excelência da escrita, pelas múltiplas referências culturais.
Também gostei bastante de ler A Montanha Mágica, de Thomas Mann, Herzog, de Saul Bellow e O Ruído do Tempo, de Julian Barnes (que acabei por reler cerca de um mês após a primeira leitura).
Fora do romanesco, refiro dois livros: KL - A História dos Campos de Concentração Nazis, de Nikolaus Wachsmann, uma obra historiográfica absolutamente notável sobre um dos temas a que recorrentemente regresso; e O Valor da Arte, de José Carlos Pereira, pequeno ensaio que aborda de forma inteligente, culta, sofisticada uma questão que, enquanto interessado por arte contemporânea, me intriga.

sábado, 10 de dezembro de 2016

"Terra de Neve", de Yasunari Kawabata

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Julgava já ter lido alguma coisa de Kawabata, talvez mesmo este livro. Porém, depois de percorridas as primeiras páginas, conclui que afinal nunca lera Terra de Neve; e, após consultar os meus registos, constatei com surpresa que nunca lera nada do autor japonês.
Ainda assim, estranhamente, tinha uma ideia sobre algumas características da sua escrita (terei retido algumas palavras lidas ou as observações sugestivas de algum leitor conhecido?): delicadeza e subtileza; a leitura confirmou estas duas características (que me remeteram, de certa forma, para os haikus), e acrescentou outra: limpidez. Os contornos deste Terra de Neve, que se desenrola em torno da relação entre dois personagens (o urbano Shimamura, de visita ao norte, e a Komako, uma vulnerável gueixa), são algo vaporosos, o que, neste caso, é uma característica muito positiva. Este é, pois, um livro absolutamente recomendável, muito belo, humano.

domingo, 4 de dezembro de 2016

"O espião que saiu do frio", de John Le Carré

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Ultimamente tenho feito leituras mais ligeiras, em certa medida ditadas pela menor disponibilidade de tempo para ler; assim, tenho visitado mais frequentemente policiais ou similares (Simenon, Montalbán ou Greene).
Desta vez lancei-me na leitura de um "clássico" dos livros de espionagem: O espião que saiu do frio, de John Le Carré. Não sendo um leitor assíduo deste tipo de literatura, posso dizer que fiquei bem impressionado com esta obra. A história, que se desenrola em torno de Thomas Leamas, um agente secreto britânico, desenrola-se em plena Guerra Fria, no contexto da Alemanha dividida. Carré aborda as dinâmicas inerentes aos serviços espionagem e contraespionagem das potências oponentes, bem como as estratégias de infiltração, contrainformação e instrumentalização dos agentes.
Senti-me convidado a retornar a este autor.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"O Terceiro Homem / O Ídolo Caído", de Graham Greene

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Antes deste O Terceiro Homem, nunca lera nada de Graham Greene. Era um daqueles muitos autores que conhecia genericamente (como autor de policiais e livros de espionagem, nomeadamente O Cônsul Honorário ou O Americano Tranquilo).
Não posso dizer que tenha ficado totalmente rendido à sua escrita com esta primeira leitura: achei o enredo de tons policiais de O Terceiro Homem um pouco simples demais; ainda assim, é inegável que se lê bem e com agrado, tendo alguns aspetos que prenderam o meu interesse: desde logo, o facto de se passar numa Viena arruinada pela 2ª Guerra Mundial (e ocupada pelas quatro potências vencedoras); depois por alguns aspetos do caráter do personagem principal, Rollo Martins, escritor de histórias ligeiras sobre o faroeste (sob o pseudónimo Buck Dexter) e pouco conhecedor da literatura mais "séria" (como Graham Greene nos faz ver numa humorística descrição de um encontro literário para o qual, passando por ser outro autor foi arrastado)...
Chegado a Viena para visitar o seu amigo Harry Lane, Rollo cedo descobre que aquele morrera atropelado em estranhas circunstâncias (tratar-se-ia de um assassinato?); instigado pelas suspeitas da polícia, segundo as quais Harry estaria envolvido em atividades ilícitas e nocivas para a saúde pública, Rollo lança-se numa investigação pessoal para perceber o que realmente se havia passado.
Não sei se conheço a versão cinematográfica de Orson Welles, mas fiquei curioso por descobrir/redescobrir (?) o filme; tendo em conta o realizador, é possível que o enredo ganhe alguma intensidade.
A segunda história do volume lido, O Ídolo Caído, centra-se na figura de um miúdo de sete anos, Philippe, quem durante as férias dos pais, fica em casa com o mordomo e sua mulher, acabando por se enredar involuntariamente nas confusões dos adultos. Trata-se de uma história curta mas bastante curiosa.