segunda-feira, 27 de julho de 2015

"Ilíada", de Homero

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Depois de reler a Odisseia, obra que está entre as que mais estimo, era forçoso descobrir a Ilíada, o relato da Guerra de Troia entre gregos (reunidos sobre o comando de Agamémnon) e troianos (entre os quais Páris, o jovem que raptara Helena, mulher de Menelau, violando a hospitalidade que lhe havia sido dada pelo marido daquela). Escuso-me a entrar em considerações sobre a historicidade deste confronto ou sobre a localização de Ílion (ou Troia), ou ainda sobre a autoria e a forma de composição (oral ou escrita) - aspetos que têm fascinado gerações de estudiosos. O prazer da leitura não exige entrar em tais dificuldades.
Como é evidente, parti para a obra com várias ideias feitas - sobre o enredo (os motivos da guerra, já acima tocados, ou o desfecho final), sobre os principais heróis, sobre a ambiência guerreira, etc.; a leitura, no entanto, conseguiu surpreender-me tremendamente. É que, tal como a Odisseia, este é um texto absolutamente fascinante (a Ilíada é uma daquelas obras completas, universais, absolutas), em muitos momentos belo (e julgo que é justo chamar a atenção para a excelente tradução em verso de Frederico Lourenço - que, aliás, também assina uma notável introdução, que consegue ser muito motivadora), e também fresco e inovador (a sua não linearidade feita de analepses - o passado vai sendo evocado para explicar o presente - e prolepses, por exemplo).
Na Ilíada há figuras absolutamente marcantes, heróis valentes que se batem para obter nome e glória mas também despojos. Atente-se aos heróis do lado grego: desde logo temos Aquiles, o herói que inicialmente se zanga com o chefe da expedição (por se considerar desconsiderado) e até ao canto XIX (dos 24 existente) renuncia ao combate (só retoma o combate para vingar, com uma fúria sanguinária, a morte do seu amado companheiro Pátroclo); depois, os irmãos Agamémnon e Menelau (este último marido da raptada Helena); também figuram os valorosos dois Ajax (os Ajantes), o ardiloso Ulisses e - talvez um dos meu prediletos - Diomedes, de tal forma destemido que chega a enfrentar um deus! Do lado troiano destaca-se Heitor (herói admirável, ainda que muito do seu arrojo resulte de ajuda divina) e, ainda que com menos proeminência, Eneias; Páris, quando aparece, é retratado como um ser frívolo e não exatamente valente... Participantes na ação narrada são, por fim, os vários deuses (uns favoráveis aos gregos, outros aos troianos), que chegam a intervir diretamente nos combates - afastando armas (e assim a morte), incutindo coragem, iludindo e defraudando, etc.
Ao longo deste épico relato, as descrições bélicas são bastante vívidas e emocionantes, mas também bastante violentas. Eis dois ou três exemplos retirados (sem grande esforço de seleção) do vigésimo canto: «(...) e todo o crânio se partiu em dois» (v. 386); «(...) penetrou a ponta [da lança] e estilhaçou o osso. Os miolos por dentro / ficaram todos borrifados» (vv. 399-400); «(...) e ao tombar segurava os intestinos nas mãos» (v. 418). Cabeças decepadas, corpos desmembrados, escalpes arrancados, olhos que saltam para fora das órbitas, sangue e ossos partidos vão-se sucedendo nas cenas de luta; de acordo com o que nos informa Frederico Lourenço na sua introdução à obra, morrem ou são feridos apenas cerca de 230 personagens liderantes - mas ficam subentendidas as mortes (muito mais numerosas) de anónimos soldados. Memoráveis são também alguns momentos de intensa emotividade e humanidade, tais como a despedida de Heitor da sua esposa e filho - que, quando o herói o tenta abraçar, se assusta com o seu aspeto agressivamente bélico; a dor (e furiosa vontade de vingança) de Aquiles pela morte de Pátroclo; ou, no final do relato, da desumanidade de Aquiles (no modo como profana o cadáver de Heitor).
Desconhecido para mim era o facto de a narrativa desta obra não se fechar totalmente: a Ilíada termina com a morte de Heitor, as cerimónias fúnebres a Pátroclo e a restituição do cadáver do herói troiano a seu pai. A guerra não se encerra: depois do período de trégua prometido por Aquiles a Príamo, para que este possa proceder às últimas homenagens a Heitor, adivinha-se o continuar da guerra, num momento em que os troianos estão confinados ao interior das muralhas, privados dos seus principais e mais fortes guerreiros, Sabemos também que Aquiles morrerá (fora-lhe augurada a celebridade mas também a morte), e que a cidade será tomada (através de uma artimanha montada por Ulisses - o famoso "cavalo de Troia" - relatada na Odisseia).
Ainda que considere a Odisseia uma obra mais apelativa (talvez por ser mais diversificada na ação), não posso negar o igual valor e interesse da Ilíada. São duas obras fundamentais da cultura.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

"Três Homens de Bicicleta", de J. K. Jerome

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Este Três Homens de Bicicleta, do britânico J. K. Jerome, é a continuação de Três Homens num Bote, lido não há muito. Desta vez, os três amigos (o narrador, Harris e George) decidem empreender uma digressão pela Alemanha com a finalidade de fugir à rotina (que, se pelo menos no caso dos primeiros dois amigos citados, se confunde um pouco com a vida doméstica, entre mulher e filhos). Tal como no relato anterior, este livro tem um caráter digressivo, sendo constituído por uma sucessão de peripécias e historietas de comicidade moderada (muito moderada até). É certo que o humor britânico está presente nas páginas deste livro, naquilo que tem de contenção, mas também de patético ou de non sense; porém, julgo que lhe falta a frescura (talvez a originalidade) do outro esforço do autor.
O aspeto que considerei mais interessante (mesmo que - de novo - apenas moderadamente interessante) são as várias considerações que vão sendo feitas (de um modo caricatural) ao caráter do povo alemão: a sua ultracivilização (que no limite lhe faz procurar dar ordem à própria Natureza), o seu doentio sentido de dever e excessivo zelo no cumprimento estrito da Lei (todos os aspetos da vida alemã, segundo o narrador, estavam devidamente legislados, com suas muitas proibições e multas), a sua faceta eminentemente militarista e cultora da cega obediência, e mesmo a sua falta de humor. Estas apreciações - e neste ponto termino -, num livro publicado originalmente em 1900, fizeram-me pensar um pouco no papel da Alemanha e do seu povo na história europeia da primeira metade do século XX: não querendo nem podendo cair em generalizações e juízos de valor bacocos, é impossível não encontrar nestas "ideias feitas" alguns dos elementos que, de uma forma ou de outra, se manifestaram nesse período da história alemã.

terça-feira, 7 de julho de 2015

"D. Sancho II. Tragédia", de Hermenegildo Fernandes

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Porque tenho vindo a acompanhar (que é como quem diz: a ler) os volumes que integram a coleção "Reis de Portugal", já tive mais do que uma vez a oportunidade de sinalizar o desigual interesse (para este leitor em particular, sublinhe-se) das diversas biografias (bem como os métodos, abordagens, etc.). Esta, começo por esclarecer, foi uma das que menos me agradou: apesar de lhe reconhecer vários (e sólidos) méritos, não pude ficar indiferente aos seus pontos menos apelativos.
O percurso de D. Sancho II, pelo que se pode perceber através da leitura da obra de Hermenegildo Fernandes, é um mais sombrios, no sentido que para certos períodos a documentação existente é escassa ou, quando existe, é demasiado indireta para apreender a figura do monarca ou os acontecimentos mais significativos do seu reinado; por outro lado, trata-se de um rei deposto (passou a reinar o seu irmão, D. Afonso III), o que exige muito mais fina acuidade na perceção das várias faces e minúcias do contexto de tal queda (a ideia de uma contexto conturbado é que explica o subtítulo "Tragedia"). O biógrafo chega a dizer numa nota prévia ser D. Sancho II «(...) um rei invisível, quase intangível», seja por incapacidade do rei (por uma eventual não ação ou falta de capacidade governativa, em especial em certas fases do seu reinado), seja por escamoteamento propositado da sua memória (o que equivale a dizer a uma posterior seleção dos documentos a preservar e/ou omissão/destruição do que eventualmente se entendeu ser desnecessário ou incómodo); assim, esta não é uma biografia em sentido estrito, mas antes «(...) uma história política com o rei por centro».
Se há algo que encontro nesta obra é uma grande honestidade no apontar das limitações do trabalho historiográfico. O biógrafo separa bem o que é factual das hipóteses, interpretações, construções intelectuais. Muitas vezes, encontrei, dada a escassez informativa que lhe serviu de base, extrema finura nas hipóteses colocadas, normalmente bem fundamentadas (e há muito trabalho dedutivo nesta obra, pelo que mais relevante se torna o modo como este é feito). A minúcia com que a informação é trabalhada (recapitulada, desdobrada, reanalisada) atesta igualmente para o cuidado historiográfico do autor, pese embora imprima uma certa lentidão no ritmo narrativo.
A escrita do autor é, frequentemente, pesada (decorada, cheia de efeitos e volteios evitáveis) ou mesmo fastidiosa, talvez por ser "elevada" em excesso (isto é, a sua escrita é intelectual e complexa - tique que pode facilmente ser confundido com pompa, pedantismo ou pretensiosismo, e prejudica o básico prazer da leitura); com isso, o autor consegue afastar o leitor comum para agradar (é, pelo menos, o que deduzo) ao leitor eminentemente erudito. Não vejo a necessidade para se escrever "Leonor ainda puella", ou então "urbe tagana" para se referir a Toledo (barroquismos que me desagradaram); entendo que dizer por muitas palavras o que se poderia dizer de uma forma mais simples (sem, contudo, sacrificar o sentido ou a profundidade) é contraproducente para o leitor comum, que apenas procura de modo honesto o entendimento. Abundam neste livro frases como «O nódulo central deste sistema de alianças converge para uma figura originária, uma espécie de Eva simbolicamente portadora de uma matriz de ADN mitocondrial, uma mater cuja longa vida abrange três quartos do século XII e que se encontra ainda politicamente ativa cerca de 1200», que, sendo compreensíveis (ainda que exijam uma atenção redobrada), poderiam conhecer formulações mais simples. A erudição, segundo quero crer, não depende da complexidade que se coloca na frase; o autor, sem este excesso retórico que lhe notei, consegue mostrar o rigor do seu trabalho historiográfico, como acima tive oportunidade de apontar.
O volume lido, há também que fazer esta referência, não ajuda o leitor, dados a densa mancha gráfica, a pequenez do tamanho de letra (as linhas tornam-se longas, indo quase até ao limite da folha) e o curto espaçamento entre linhas (julgo serem exageradas as 47 linhas que contei numa página sem notas de rodapé). Como é evidente, e daí chamar a atenção para este ponto, tal aspeto gráfico torna a leitura muito mais incómoda, cansativa (obrigando a descansar os olhos com frequência). Esta característica não é, no entanto, exclusiva desta volume - nesta coleção (na edição da Círculo de Leitores, e não na da associada Temas e Debates) há vários volumes com esta "maleita" (mesmo que perceba a lógica da economia de folhas, dado ser uma volumosa coleção para arrumar, julgo existirem limites de razoabilidade; afinal, pode bem ser uma bela coleção para decorar uma estante, mas antes de tudo deveria servir o propósito de uma leitura confortável).
As dificuldades e os pontos menos compatíveis com este leitor particular, como referi, foram múltiplos. Não fosse o meu objetivo de ler os trinta e quatro volumes desta coleção, certamente teria abandonado a biografia de D. Sancho II.

sábado, 4 de julho de 2015

"A Aldeia de Stepantchikovo e os seus Habitantes", de Fedor Dostoievski

 
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Mais do que uma vez tenho escrito que Dostoievski é um dos meus autores de referência. Nos meus anos de formação como leitor, passadas as leituras próprias da adolescência e primeira juventude, Dostoievski foi um autor basilar - um daqueles que, pelo seu génio, abriu portas e, consequentemente, deixou profundas marcas. Nestes últimos anos tenho regressado às suas obras (talvez não seja totalmente correto falar em regresso, porque na verdade nunca me distanciei - apenas espacei mais as leituras), repisando desde as suas obras-primas até às suas obras menores.
A Aldeia de Stepantchikovo e os seus Habitantes, não sendo um das suas obras mais marcantes, também não será das suas obras de menor interesse. Julgo que este romance mostra-nos de uma forma aberta a faceta humorística do autor, sendo que o seu humor encerra tonalidades patéticas ou mesmo absurdas. De certa maneira, pesem embora as diferenças, há n'A Aldeia qualquer coisa de gogoliano, combinado com o poder dostoievskiano em montar boas histórias.
No centro do enredo temos Fomá Fomitch, personagem com um vasto conjunto de aspetos negativos. Lacaio subserviente (e humilhado) de um general, Fomá havia-se convertido, após a morte do militar, num figura despótica (insuportavelmente arrogante, manipulador, chantagista, maldoso, caprichoso, birrento) junto da viúva e do seu filho - o bondoso, delicado e fraco Egor Rosstaniov, proprietário de Stepantchikovo e anfitrião de Fomá. O narrador, sobrinho de Egor, relata-nos as violências, exigências e caprichos de Fomá Fomitch, arranjando uma explicação psicológica para o seu comportamento (o ressentimento por ter sido bobo do general degenerara numa índole vingativa e tirânica). Em toda a ação bem como na caracterização dos vários personagens impera um certo exagero (ou, como acima referi, patético), que traz sumo a esta espécie de farsa ocorrida em apenas dois dias.
Marcada pela abundância de diálogos, este é um livro bastante acessível do autor. Ainda assim, julgo que é muito recomendável.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

"As Aventuras de Augie March", de Saul Bellow

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Outro autor que se descobre: Saul Bellow; ou, poderia dize-lo alternativamente, outro autor que veio para ficar. Conhecia-o de nome, nomeadamente associado ao de Philip Roth (como um espécie de autor referência), mas como me acontece com tantos outros autores, nunca sentira uma especial curiosidade em explorar as suas obras. Não vou alongar-me a explicar como é que cheguei a Bellow (na verdade, tal contacto não tem muita história), mas somente dizer que foi um feliz encontro.
Como o próprio título indica, esta obra (um romance de formação, à imagem de, por exemplo, Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce) trata das aventuras e desventuras (os amores e - aproveitando a oposição anterior - e desamores, os mil e um expedientes - nem sempre legais - e ofícios, etc.) de Augie March, durante a sua adolescência até à primeira idade adulta, numa fase particularmente marcante da história dos Estados Unidos da América, que se estende dos anos de prosperidade que antecedem a Grande Depressão até à Segunda Guerra Mundial (e mesmo um pouquinho depois). A "formação", acima mencionada, refere-se ao processo de amadurecimento e de autodescoberta de Augie, uma peregrinação neste caso feita de saltos e adaptações constantes mas também de instabilidade e dificuldade em dar rumo à vida.
Há neste livro  muitos aspetos paradigmáticos da cultura americana das primeiras décadas do século vinte: uma certa multiculturalidade enraizada nas várias origens de muitos dos personagens (imigrados de diferentes pontos da Europa e América do Sul); uma certa pobreza (não miserável, é certo) associada aos bairros das classes populares; o dinamismo da economia e do mercado laboral americanos (o que ajuda a explicar os permanentes saltos laborais de Augie); a cultura da perseverança e da adaptabilidade constante (a novos empregos e situações - aspeto, de certa forma, ligado ao conceito de "terra das oportunidades" -, a busca do lucro a qualquer - ainda que por via de "esquemas" -, etc.); entre muitos outros.
A escrita de Bellow tem, a meu ver, muito de cinematográfico, não apenas pela ação constante como pelo caráter imagético, colorido, pormenorizado e diversificado. Por tudo isto, penso que As Aventuras de Augie March é um livro extremamente rico, que se lê com muito agrado.
Reservo, para um próximo momento, a leitura de Herzog.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

"História secreta de um romance", de Mario Vargas Llosa

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Após recentemente ter lido Pantaleão e as Visitadoras, regresso a Mario Vargas Llosa, desta vez sob a forma de uma conferência proferida numa universidade americana em 1968. Não sendo nenhuma obra indispensável do autor, ainda assim encontrei neste curto volume (que se lê descontraidamente em pouco mais de uma hora) motivos de interesse que justificaram plenamente a leitura.
Como se adivinha pelo título, em História secreta de um romance Llosa revela o que está subjacente à criação de um romance (neste caso, especificamente ao romance A Casa Verde): a reciclagem de memórias e vivências do autor, a apropriação de personagens, etc. Para mim este curto texto funcionou com um convite explícito à leitura não apenas de A Casa Verde, como também de A Educação Sentimental e Salambô, de Flaubert (sendo que o primeiro destes livros do escritor francês é apontado por Llosa como o livro que levaria para uma ilha deserta).

domingo, 7 de junho de 2015

"Bairro Ocidental", de Manuel Alegre

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Ultimamente não leio tanta poesia como noutros tempos. Resultará isso do facto de estar a envelhecer, e/ou de (espero que não) estar a perder uma certa predisposição lírica? Na verdade, não estou em condições de recusar tais razões, mas o que é certo é que nestes últimos anos (por motivos que não vou explorar aqui) tenho tido menos acesso a livros de poesia, especialmente a livros recentes e dos novos autores que vão surgindo.
A leitura de Bairro Ocidental, de Manuel Alegre, aconteceu porque, como noutros tempos, o decidi fazer numa visita a uma livraria. Manuel Alegre não será dos meus poetas de eleição, mas, ainda assim, não lhe nego o interesse (que, no seu caso, passa por uma maneira muito própria - pelo menos é essa a minha impressão, até me ser provado o contrário - de trabalhar o português, e por uma expressividade algo combativa ou resistente em intenção). Ao ler a poesia de Alegre não me afetam grandemente quaisquer preconceitos que pudesse ter pela sua condição de deputado ou pelo seu papel histórico (por exemplo, de redator do preâmbulo da nossa constituição); isto é, sempre que contacto com a sua poesia, acabo por encontrar um punhado de poemas que me agradam a um nível global, universal.
Neste livro, entre outros motivos de interesse, encontrei uma visão desencantada (cansada, por vezes revoltada) face à sombria realidade política e económica do nosso país (aos excessos do liberalismo económico, às restrições à soberania nacional, à por vezes traumatizante subordinação aos mercados - tema também tratado por Luís Filipe Castro Mendes, em A Misericórdia dos Mercados). Assim, na primeira parte deste livro encontramos poemas intitulados "Resgate" ou "Cassandra e a Troika", e vários versos de desalento e de revolta: «não sei ser português sem Portugal»; «Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro» (versos do poema "Bairro Ocidental"). Há também poema de teor - passe a pobreza do juízo - mais livre e lírico, em que mais claramente se nota o já mencionado cuidadoso trabalho com a palavra.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

"D. Fernando", de Rita Costa Gomes

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Eis que, na sequência de D. João I, de Maria Helena da Cruz Coelho, lancei-me a ler D. Fernando, de Rita Costa Gomes. Tendo já lido as biografias (da coleção "Reis de Portugal") de D. Pedro I (pai de D. Fernando) e do sucessor de D. João I (D. Duarte), faltava preencher aquele "vazio". Genericamente ligo o reinado de D. Fernando à questão das guerras contra Castela (as três guerras fernandinas), a um período de fomes e epidemias (e suas consequências a nível social), à figura (muito ambígua) de D. Leonor Teles e à crise de sucessão após a sua morte (a sua filha D. Beatriz, recorde-se, havia casado com o rei de Castela fazendo perigar a independência nacional).
O trabalho de Rita Costa Gomes parece-me muito ponderado, problematizando os vários aspetos acima mencionados e não omitindo as dificuldades (como seja ultrapassar uma certa visão negativa que há deste monarca - um rei fraco, influenciado por Leonor Teles e sua família - e alguns aspetos calcificados a partir da crónica de Fernão Lopes) e os pontos mais sombrios (acerca da infância e juventude de D. Fernando, os estudiosos deparam-se com escassa informação, havendo necessidade de reconstituir estas fases da vida pelo que parece ser mais verosímil e provável). A política peninsular (a relação de Portugal com Castela e com os restantes reinos da Península) e as inflexões relativas à questão papal (o Cisma da igreja estala em pleno reinado de D. Fernando) são bastante bem exploradas e interrelacionadas nesta obra, o que resulta numa compreensão mais profunda de certas opções régias. Particularmente achei interessante conhecer as relações conturbadas mantidas com os seus meios irmãos (especialmente com D. João Castro e D. Dinis Castro, filhos do seu pai D. Pedro e de D. Inês de Castro), bem como o fim do seu reinado (a hipótese de envenenamento, a doença e o definhar nos seus últimos anos de vida).
Por último achei curiosos os textos (remetidos para anexo, embora fizesse sentido sintetiza-los numa introdução) "Esboço de uma mitografia do personagem de D. Fernando" (panorâmica sobre os várias visões sobre o rei ao longo dos séculos, destacando e problematizando os aspetos calcinados - os "mitos" -, que nem sempre são fáceis de ultrapassar) e "Leituras atuais sobre o rei e a época de D. Fernando" (revisão da historiografia do século XX até ao presente).
Próxima jornada (neste percurso pelas biografias régias) passará pelos reis D. Sancho II e D. Afonso III, cujos destinos, como é sabido, estão umbilicalmente ligados.

domingo, 31 de maio de 2015

"Pantaleão e as Visitadoras", de Mario Vargas Llosa

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Não escondo que sou fã da obra de Mario Vargas Llosa. Cada novo livro que dele leio (não necessariamente os mais recentes - o caso presente foi publicado há mais de quarenta anos) solidifica a convicção da qualidade da escrita e da imaginação romanesca de Llosa.
Na badana do exemplar lido fui informado que Pantaleão e as Visitadoras é um dos romances mais populares de Vargas Llosa. É compreensível: trata-se de um livro bastante acessível, tanto ao nível da linguagem como da densidade narrativa, e apelativo, pelo caráter humorístico e irónico da história (a organização, por parte do capitão Pantaleão Pantoja, de um serviço de prostitutas - eufemisticamente designadas "visitadoras" - dirigido aos militares das forças armadas peruanas da Amazónia, serviço esse que começa a crescer descontroladamente). Tenho para mim que este livro é tão convidativo como Tia Júlia e o Escrevedor e Travessuras da Menina Má.
Talvez o ponto mais original e curioso do livro (ou o ponto que mais me impressionou) seja o aspeto formal, uma vez que o romance constrói-se de diferentes estilos narrativos: há capítulos em que os diálogos intercalados dominam (capítulos onde várias personagens, situações e tempos de ação se misturam); outros erigidos de relatórios, isto é, escritos minuciosos em linguagem própria (impessoal) do funcionarismo administrativo (pese embora - e daí resulta um efeito cómico - os assuntos tratados: avaliação física de candidatas a visitadoras, considerações sobre depravações e fantasias sexuais, etc.); de quando em quando há exemplos de escrita epistolar, sendo que a linguagem (e a correção gramatical e ortográfica) se altera consoante os intervenientes; interessantes são também os capítulos em que Llosa mimetiza as linguagens próprias de um programa de rádio (de feições populares) e de um jornal (notícia, crónica, etc.).
Um belíssimo livro, em suma, fácil de recomendar, verdadeiramente saboroso.

domingo, 24 de maio de 2015

"O Pequeno Livro do Grande Terramoto", de Rui Tavares

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Eis um livro que me fugiu durante uns anos: O Pequeno Livro do Grande Terramoto, de Rui Tavares, originalmente editado no ano em que se assinalaram os 250 anos sobre o terramoto de Lisboa de 1755. Por sorte, encontrei-o recentemente na biblioteca municipal e assim, apesar do "atraso" (se é certo que em História muitas vezes os interesses editoriais colam-se, compreensivelmente, às efemérides, tal não significa que os nossos interesses pessoais devam andar ao sabor destes ventos e destas modas), surgindo desta forma a possibilidade de lê-lo.
Se o assunto é sobejamente conhecido, e na referida efeméride foram múltiplos os estudos, documentários, reportagens, notícias sobre a catástrofe setecentista, já a forma escolhida por Rui Tavares pareceu-me bastante original. Antes de mais, o autor assume o caráter de divulgação da sua obra (assim se entende - não exatamente pela extensão, pelo número de páginas ou de referências bibliográficas - a expressão "pequeno livro" constante no título) - um trabalho, a meu ver, muito feliz, na medida em que destaca os pontos mais importantes (os acontecimentos daquele dia 1 de Novembro, a reconstrução, o papel do Marquês de Pombal, o impacto do acontecido, etc.) com o exigível rigor e alguma acuidade analítica. A escrita do autor é, por outro lado, um ponto forte a favor da obra, uma vez que conjuga inteligentemente descrição, análise e suposição (pense-se no interessante exercício de história contra factual contante num dos primeiros capítulos: como seria Lisboa se o terramoto não tivesse destruído a zona baixa da cidade), e é enriquecida por toques de humor e alguns efeitos literários.
A obra inicia-se com uma reflexão sobre o impacto mental e cultural de certos "dias mercantes" (aqueles dias que pela sua singularidade mudam as nossas vidas, que têm um antes e um depois, que constituem um trauma), fazendo o paralelismo do dia do terramoto com o 11 de Setembro. Isto porque o terramoto de Lisboa gerou vários debates (sobre o papel de Deus e/ou da Natureza nas catástrofes), refletidos em obras de grandes autores (os iluministas Voltaire - que aproveita o acontecimento nefasto para atacar a filosofia de Leibnitz -, Kant ou Rosseau debruçaram-se sobre o terramoto), difundidos em gazetas, correspondência, relatos, sermões, poemas, folhetins, e representada em gravuras. É precisamente neste impacto mental e cultural, com que se encerra o livro, que a meu ver assenta o seu maior mérito.
O livro de Rui Tavares, mais do que um livro de História, é um exemplo positivo de ensaio histórico - está lá a História, mas esta é tratada e apresentada de forma mais livre e pessoal, o que, no presente caso, acaba por resultar bastante bem.