quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Off-side", de Gonzalo Torrente Ballester

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Já mais de uma vez tive a oportunidade de afirmar nestes meus textos que aprecio bastante este autor; é sempre com prazer que regresso à sua escrita. Mas se os três livros anteriormente aqui referenciados (D. Juan, O Romance de Pepe Ansúrez e Crónica do Rei Pasmado) haviam sido objeto de releitura, este Off-side foi lido pela primeira vez. Andava há anos para o trazer de uma biblioteca familiar, mas foram-se sempre impondo outras leituras - o que não é necessariamente mau, porque, afinal, é positivo quando ainda me "sobram" alguns livros não lidos de um autor que me agrada, e que podem, de um momento para o outro, constituir descobertas e prazeres futuros.
Pois este Off-side, não sendo uma das obras mais interessantes que li do autor, é um belíssimo livro, conjugando um enredo construído de muitas linhas cruzadas (muitos personagens de vários estratos sociais que se interligam) com um certo olhar crítico à sociedade madrilena de meados do século vinte. Nele se cruzam falsários talentosos, prostitutas letradas, revolucionários acossados, escritores arruinados, intelectuais independentes e até um diretor bancário caprichoso de fama como literato da Academia (ainda que tenha um negro a escrever-lhe as obras) e de prestígio como embaixador...

sábado, 5 de novembro de 2016

"Clepsidra", de Camilo Pessanha

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Mais um regresso. Desta vez, parti à redescoberta da poesia de Camilo Pessanha, que tanto me impressionara na juventude. Reencontrei aquela linguagem vaga, difusa, alusiva mas que simultaneamente (e surpreendentemente) consegue ser precisa; linguagem ritmicamente impressiva, manifestamente musical, frequentemente intensa.
A releitura confirmou - ou mesmo suplantou - as impressões dos meus vinte anos: a obra de Pessanha é, de facto, tremendamente original e do mais interessante dentro do universo da poesia portuguesa da primeira metade do século vinte (século, aliás, tão rico em belíssimos poetas).

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

"Tatuagem", de Manuel Vázquez Montalbán

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Apostado em ler, entre outras leituras, uns policiais, e estando a seguir o trilho de Simenon e Montalbán, eis que chegou a vez deste Tatuagem.
Desta vez, Pepe Carvalho, investigador privado insólito, é contratado para descobrir a identidade de um cadáver que dá à costa com a enigmática tatuagem "Nasci para revolucionar o inferno", personagem que rapidamente é associado a atividades ilícitas e a redes que operam na Holanda. Alguns personagens repetem-se de outros livros recentemente lidos: Charo, a prostituta-amante de Pepe, ou Teresa Marsé (de Os Pássaros de Banguecoque), na sua primeira aparição.
A escrita de Montalbán é fundamentalmente direta, mas pontuada por um humor muito próprio, que mistura ironia com uma certa rudeza («Contemplou com palermice de turista o palácio do Tribunal Internacional. Um animal de grandes intestinos cagava sobre a relva que precedia a a porta gradeada.»). Aliás, essa rudeza liga com com a personalidade do detetive, um dos atrativos - a meu ver - dos policiais de Montalbán.
Pepe Carvalho conjuga, pois, um passado algo nubloso (enquanto agente da CIA), uma adivinhada cultura literária (ainda que vá eliminando os volumes da sua biblioteca), um apurado gosto pelo bom comer e beber (mais uma vez, repetem-se os episódios em que se fazem apreciações gastronómicas, em que se descrevem minuciosamente os pratos apreciados em restaurantes ou até em que se avançam receitas), uma certa brutalidade no agir e no pensar. Carvalho não é, assim, muito dado a meditações filosóficas (a existirem, estas aparecem associadas à comida: «A inevitável filosofia da sobremesa ofuscava a mente de Carvalho.»); prefere viver num certo primitivismo intelectual, talvez renegando o que já fora («Repugnava-lhe qualquer tempo perdido na análise do mundo em que vivia, e já há muito decidira estar de passagem entre a infância e a velhice de um destino pessoal e intransmissível, de um vida que, mais ou menos, melhor ou pior, ninguém viveria por ele. Os outros que fossem levar no cu. Limitara a sua capacidade de emoção abstrata à que lhe pudesse transmitir a paisagem. As suas restantes emoções eram-lhe proporcionadas pela pele.»).

domingo, 16 de outubro de 2016

"O Ruído do Tempo", de Julian Barnes

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Julian Barnes é autor de O Papagaio de Flaubert, livro que muito prazer me deu descobrir, e que é um dos meus primeiros contactos com aquele tipo de literatura que, sem timidez, se funde com o ensaio. Esse é, para mim, um livro brilhante (brilha na minha "mitobibliografia"), que me marcou imenso, que reli umas quantas vezes (e conto outras tantas reler) para reencontrar (e de facto reencontrei sempre) o imenso prazer de o estar relendo. Acontece, porém, que já não leio um livro de Julian Barnes há uns tempos; e mais: o bom conceito que tenho do autor, assenta - com o livro agora lido - em apenas três livros (o que é manifestamente pouco e só me incentiva a procurar descobrir os que ainda não pude ler).
O Ruído do Tempo, o último livro do autor, despertou, desde que tomei conhecimento da sua existência, a minha curiosidade. Li umas quantas palavras convidativas na imprensa e na Internet (mas que podem tais palavras significar, quando quase sempre estão presas à mera promoção?), folheei o volume numa livraria e, depois da boa impressão com que fiquei, decidi-me finalmente a lê-lo. O tema do livro ajudou bastante: Barnes dedica este livro a Dmitri Shostakovich (ou Chostakovich), compositor russo que está ligado ao meu percurso como apreciador de música.
Evidentemente que, ao entrar na biografia de um autor que procurou ser omisso ou esquivo nos seus pensamentos (e daí haver tanta celeuma em torno deles; discute-se, por exemplo, a questão do seu - sincero?, coagido? - alinhamento com o regime), Barnes opta por "uma certa" interpretação (nem de outro modo poderia ser); porém, o que encontrei nesta obra coincide, grosso modo, com o que conheço do percurso de compositor russo - o que, evidentemente, me fez gostar ainda mais dela.
«Só sabia que este era o pior tempo de todos.» Desta forma abre Barnes os três capítulos que compõem O Ruído do Tempo. O livro parte do modo como a sua ópera "Lady Macbeth de Mtsensk" pôs, em virtude de um artigo arrasador no Pravda denominado "Chinfrim em vez de música" (possivelmente saído do punho de Estaline), a carreira e a vida de Shostakovich em risco - passou de compositor amado e reputado a inimigo do povo. A segunda parte retrata a ida (a mando de Estaline, que lhe telefonou pessoalmente) do compositor aos Estados Unidos da América, em 1949, em representação da URSS num congresso em prol da paz; aí, de forma humilhante, teve que ler um discurso preparado pelo Poder e condenar publicamente a música de Stravinski, compositor que muito admirava, como "formalista" (o pior vício que a arte podia revelar na União Soviética estalinista). Por fim, a última parte mostra-nos um Shostakovich, já no período de Krushchev, humilhado com a sua coagida adesão ao partido. De um modo geral, Barnes subscreve - a meu ver de uma forma muito plausível - a tese que defende que as "conivências" de Shostakovich com o Poder foram uma mera questão de sobrevivência, em especialmente nos tempos de "canibalismo" homicida de Estaline. O medo foi permanente na vida do compositor, contribuindo assim para o tom tenso, ansioso da sua música.
Os episódios revisitados pelo escritor inglês são relativamente conhecidos por todos os que amam a obra do compositor russo; porém, é na maneira de os contar que reside o brilho (talvez este passe a brilhar igualmente na minha "mitobibliografia") de O Ruído do Tempo. A escrita de Barnes é belíssima, a opção pela sucessão de "fragmentos" dá graça ao enredo.
Fecho dizendo que, mal acabei o livro, fiquei com vontade de o reler a breve trecho - talvez ainda este ano, quem sabe.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Uma Menina está Perdida no seu Século à Procura do Pai", de Gonçalo M. Tavares

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Consigo reconhecer neste Uma Menina está Perdida no seu Século à Procura do Pai as características que me fazem apreciar a escrita e o universo imaginário de Gonçalo M. Tavares, e que acabam por rebater a impressão menos positiva do livro lido há uns meses (Os Velhos Também Querem Viver).
A história desenvolve-se em torno de dois personagens: Hanna, uma menina com trissomia 21 que diz andar à procura do pai, e Marcus, um indivíduo que, embora andando em fuga (do seu passado?), encontra uma espécie de rumo na busca de Hanna. Na sua dupla demanda (busca/fuga), estas duas figuras cruzam-se com um conjunto de seres caricatos, cada um com um modo particular (igualmente insólito) de ver a vida e o mundo: um revolucionário que cola cartazes em ruas secundárias, um antiquário que, seguindo uma tradição familiar, se dedica a escrever números pares, ou um artista de arte microscópica.
Se li este livro com bastante agrado, achei o desfecho pouco satisfatório do romance - como se o mesmo concluísse à falta de conclusão, apagando-se no vazio. Poder-se-á legitimamente defender que mais nada haveria a contar, que mais nada se podia fazer daqueles dois personagens; porém, considerando o modo como o autor fechou os romances de "O Reino", acredito que este Uma Menina está Perdida no seu Século à Procura do Pai, mesmo sem trazer respostas, poderia ter sido fechado de um modo menos inócuo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"O Tambor de Lata", de Günter Grass

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Quando se parte para uma obra com expectativas, correm-se riscos, sendo a desilusão (já nem refiro a sensação de perda de tempo) o mais significativo. Ao partir para este O Tambor de Lata, do "nobelitado" Günter Grass, não pensei estar a fazer uma jogada arriscada; afinal, além de um certo estatuto subjacente ao prestigiado (mas nem assim tão linear) prémio literário, já havia recolhido alguns ecos positivos acerca das suas obras mais importantes. Até ao momento, apenas lera um curto ensaio intitulado Escrever depois de Auschwitz, que, de resto, achei bastante inócuo - mas sempre parti do pressuposto (continuo a partir, apesar de tudo) que tal texto não fazia justiça à escrita do autor.
O Tambor de Lata, publicado em 1959, é considerado um romance importante no âmbito da literatura alemã contemporânea, e isto, ao que parece, deve-se em grande parte ao facto de o autor ter (muito timidamente, a meu ver) tocado no tema do nazismo e da guerra. O narrador e protagonista, Oskar Matzerath, internado num asilo de alienados, revisita a sua história familiar e pessoal (e, por arrasto a da cidade de Danzig e a do povo alemão), desde finais do século XIX a meados do século XX. No centro do seu percurso há alguns aspetos que se assumem como centrais: o seu nanismo, o seu (conexo) comportamento infantilizado e a omnipresença dos tambores de lata ao longo da sua vida (presença essa de, segundo o narrador, tons quase metafísicos, pois Oskar pretende reconstituir o passado com a ajuda do tambor). De permeio há ainda a sua capacidade de partir vidros com a voz e a sua ambígua responsabilidade no fim de vários dos seus entes queridos. No fundo - muito no fundo -, é possível antever alguns aspetos da Alemanha dos anos 30 (os comícios nazis, o enquadramento da juventude, o destino trágico dos judeus).
A escrita de Grass, através do relato acriançado e/ou algo louco de Oskas, intenta ser irónica (ou mesmo cínica) e cómica. Porém, pessoalmente, não consegui simpatizar com o humor de Grass (acontece-me o mesmo, de certa forma, com o humor do português José Saramago). Ao longo do livro fiquei com a sensação de que o autor apontava para o "patético" (o "patético", isto é, a busca do caricato, do sensacional, do inaudito, pode ser literariamente brilhante - basta pensar em Gogol); porém, entendo que o autor alemão chegou apenas ao "pateta". Para mim, as mil e uma peripécias vividas pelo protagonista são mais "engraçadinhas" do que propriamente engraçadas. Outro aspeto que não me encantou (embora este aspeto em sim mesmo não seja um defeito) é a linearidade cronológica do enredo: certo, trata-se do relato de uma vida - mas a mera sucessão de episódios, sem qualquer profundidade subjacente, acabaram por matar-me o interesse.
Terminei as quase setecentas páginas do livro, mas tenho que confessar que penei um pouco nas últimas duzentas. Comecei gradualmente a desconfiar que a pobreza (filosófica, se quisermos) do livro iria estender-se até à última página; suspeitei que o autor não iria entrar, após quinhentas páginas de episódios mais ou menos rasteirinhos, em grandes elucubrações. E isso veio a confirmar-se, infelizmente. Talvez a culpa esteja neste leitor, mas a cinquenta páginas do fim, após um ou dois dias a ganhar coragem para retomar a leitura, só pensava no que ler a seguir.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

"Maigret & A Noite da Encruzilhada", de Georges Simenon

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Após a leitura deste A Noite da Encruzilhada, dou-me feliz pela persistência: achei este livro um pouco mais cativante que os anteriormente lidos (Pietr, o Letão e O Enforcado da Igreja).
Desta feita, o comissário Maigret vê-se confrontado com um caso estranho em que ninguém é aquilo que aparenta. Depois de um longo interrogatório, Carl Andersen, um aristocrata dinamarquês, continua impassivelmente a reclamar a sua inocência: o automóvel de um vizinho aparecera na sua garagem com um morto, que trabalhava em diamantes. Maigret rapidamente segue para a Encruzilhada das Três Viúvas, onde, além de Carl Andersen, existem a casa de um agente de seguros e uma garagem; ao longo da sua investigação no local, o comissário começa a perceber que, no comportamento dos vários intervenientes, há qualquer coisa de farsa.
Na contracapa do livro faz-se referência a um filme de Jean Renoir inspirado neste livro - fiquei um pouco tentado a procurar vê-lo no futuro.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"Morte em Veneza", de Thomas Mann

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Após do arrebatamento provocado pel'A Montanha Mágica, havia que regressar a Morte em Veneza, lido há bastante tempo. Devo confessar que a ideia que tinha desta novela era tremendamente difusa; ainda assim, sabia ter ficado bastante bem impressionado.
A releitura confirmou tratar-se de uma pequena obra-prima, em que estão presentes a escrita de Mann - rica, elaborada, precisa, culta -, o tom elevado das sua reflexões de caráter mais abstrato (sobre arte, a beleza, etc.) e o colorido das suas descrições (tão visível, por exemplo, na sua descrição do nascer do sol),
A história é extremamente simples (e, como é sabido, foi brilhantemente adaptada ao cinema pelo meticuloso Visconti): trata da paixão homossexual de Gustav Aschenbach, um melancólico e austero homem de meia idade alemão, e consagrado escritor, por um adolescente de comprido e claro cabelo encaracolado (Tadzio), numa estância de férias em Veneza. Aschenbach vê no jovem a "beleza perfeita", e por ela se deixa embriagar, contrariando a sua austera racionalidade, que lhe mostra o caratér impróprio do seu amor platónico (especialmente se se considerar a moralidade da alta burguesia de fim de século) e a necessidade de partir para salvaguardar a saúde (quando se apercebe dos ares pouco salubres, ou mesmo epidémicos, de Veneza). A descrição do desassossego do protagonista, bem como das suas ânsias próprias do sentimento amoroso, é, a meu ver, absolutamente exemplar.
Achei tremendamente curioso um aspeto que me remeteu para a nossa atualidade: o modo como as autoridades locais "encobrem" a epidemia, menorizando, para tentar minimizar o impacto económico (turístico).

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Maigret & O Enforcado da Igreja", de Georges Simenon

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E duas semanas depois da "estreia", eis que reincido na leitura de Simenon. Procurei, de entre os que tinha à disposição, um dos mais antigos (Maigret & O Enforcado da Igreja, o quarto da série "Maigret", publicado em 1931), uma vez que tenciono, de quando em quando (intercalando com leituras mais exigentes), ler um dos numerosos (mais de oitenta, ao que sei) volumes dedicados às investigações do comissário da Polícia Judiciária francesa.
Tal como o livro anteriormente lido, a história (bem assim como a escrita) de Maigret & O Enforcado da Igreja é relativamente simples: desta feita, Maigret tropeça casualmente em território belga no percurso de um sujeito que lhe parece suspeito; ao segui-lo até território alemão, acaba por interferir com o percurso do tal indivíduo (trocando-lhe a maleta que carregava, contendo um fato com vestígios de sangue), levando-o ao suicídio com um tiro na boca. As investigações de Maigret levam-no à descoberta da identidade verdadeira (pois usava um nome falso) e a tropeçar em vários compatriotas seus e numa história que acontecera vários anos antes.
Pessoalmente, e de novo, não posso dizer ter ficado encantado com esta obra, por ser algo básica, tanto ao nível do enredo (da investigação), como a nível literário. Ainda assim, há que dizer que, se não foi uma leitura propriamente enriquecedora, pelo menos proporcionou-me uns momentos entretidos (superficiais?) de leitura descontraída.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Marc Bloch. Uma Vida na História", de Carole Fink

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Ao amigo Filipe
 
Esta biografia foi-me recomendada há quase vinte anos por um figurão do mundo académico numa conversa de corredor, a seguir à aula a que assistiam apenas dez alunos; após essa conversa, tropecei duas ou três vezes no livro em feiras do livro barato, mas, após folheá-lo, nunca senti suficiente interesse para comprá-lo. Talvez a capa, demasiado inexpressiva, também tivesse contribuído para a rejeição... Certo é que o descartei, como tantos e tantos livros que me foram sugeridos (ou que nalgum momento me interessaram) ao longo dos anos...
Ora, há umas semanas atrás, estando a ver um documentário em que se fazia referência à intervenção de intelectuais (sobretudo escritores e artistas plásticos) na Resistência Francesa contra a dominação nazi, lembrei-me que Marc Bloch havia sido um intelectual (neste caso um académico judeu) que morrera por ter preferido lutar como elemento da Resistência. Daí a verificar se a sua biografia, da autoria de Carole Fink, existia na biblioteca local foi apenas um momento. E, é caso para dizer, ainda bem que uma coisa levou à outra, e eu me predispus a levantar o livro, a trazê-lo para casa e a iniciar empenhadamente a leitura!
Porque Marc Bloch. Uma Vida na História é uma biografia que, a muitos títulos, vale a pena ler. O biografado é uma figura de interesse: um intelectual brilhante (enquanto historiador procurou inovar metodologicamente e acentuar a necessidade de espírito crítico, mostrando um interesse precoce pela história das mentalidades) mas também um resistente em tempos de luta pela liberdade do jugo nazi. Por outro lado, o discurso biográfico é claro, acessível e muito bem estruturado; segue uma ordem cronológica (é, assim, algo conservador), cruzando o percurso do biografado com vários níveis (mais gerais ou mais particulares) de contextualização.
A biografia de Carole Fink perpassa pelos momentos mais importantes da vida de Bloch: o seu percurso formativo como jovem historiador (filho de um historiador do período clássico, Bloch seguir-lhe-á as pisadas e, enquanto termina o seu doutoramento, já finda a guerra, ensina na refundada Universidade de Estrasburgo); o seu papel como militar na Primeira Guerra Mundial (destacou-se como oficial, chegando ao posto de capitão); as suas conquistas académicas (as suas principais obras - Os Reis Taumaturgos, A Sociedade Feudal ou Introdução à História -, são objetos de particular atenção, chamando-se atenção para as suas virtudes sem omitir as suas limitações ou mesmo fragilidades); o seu papel de cofundador dos Annales, em 1929, conjuntamente com Lucien Febvre (revista de bastante relevo no âmbito da historiografia, pelo que pretendeu inovar - saindo da história tradicional, quer era sobretudo política, procurando novas perspetivas multidisciplinares, apostando em temas contemporâneos, etc.), a sua participação na Segunda Guerra Mundial (desta vez como derrotado, tendo assistido à derrocada do exército francês e estado presente no célebre episódio da evacuação de Dunquerque), a sua passagem pela República de Vichy (território francês não ocupado pelos nazis durante a guerra, governado autoritária e cooperativamente com os alemães) e reação à política antissemita aí praticada (chegou a procurar refúgio para si e para a sua família nos Estados Unidos, mas tal nunca se concretizou; dado o seu prestígio, e apesar da segregação dos judeus, conseguiu manter-se no ensino superior até não haver mais condições); e, por fim, a sua adesão e participação na Resistência (desempenhou um cargo dirigente em Lyon, onde viveu na clandestinidade, acabando por ser capturado pela Gestapo, torturado e morto em 1944, dez dias depois do desembarque aliado na Normandia).
Por tudo o que escrevi, posso dizer que este livro foi um agradável surpresa; muito me congratulo por ter resgatado este livro, que li relativamente em pouco tempo. Ainda que tenha a noção que Introdução à História é uma obra algo divagante, talvez porque elaborada em grande medida de memória (Bloch erigiu-a sem recurso à sua biblioteca, que havia sido confiscada pelos nazis), fiquei um pouco tentado a regressar a ela. Logo se verá.