quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"A verdade sobre o caso Harry Quebert", de Joël Dicker

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- Um bom livro, Marcus, não se mede apenas pelas últimas palavras, mas pelo efeito coletivo de todas as que as precederam. Cerca de meio segundo depois de terminar o livro, depois de ler a última palavra, o leitor deve sentir-se dominado por um sentimento poderoso; por um instante, só deve pensar em tudo o que acaba de ler, olhar para a capa e sorrir com uma ponta de tristeza porque vai sentir a falta das personagens. Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler. (in A verdade sobre o caso Harry Quebert)
De quando em quando sabe bem ler um policial. De preferência, um bom policial - o que significa não apenas com uma trama interessante, mas sobretudo bem escrito. A verdade sobre o caso Harry Quebert chegou-me ao conhecimento como um bestseller (o que só por si não tem qualquer significado negativo, pois há bestsellers que muito me agradam, como por exemplo o recentemente relido O Nome da Rosa, ou a trilogia "Millennium", do falecido Stieg Larsson); como o que li na contracapa do livro conseguiu interessar-me, aventurei-me a ler o livro de Joël Dicker. Se gostei? Bem, esse é um assunto completamente diferente. Nestas linhas procurarei escrever a minha verdade (seguramente discutível, porque relativa) sobre A verdade sobre o caso Harry Quebert.
O jovem autor suíço deste policial relata-nos a investigação de um homicídio ocorrido há mais de 30 anos numa pequena cidade americana, e que aparentemente incrimina Harry Quebert, escritor consagrado e maior amigo de Marcus Goldman, o protagonista e narrador da história, também ele escritor. O remexer do passado vai trazer à tona um caso amoroso de tons nabokovianos (entre o Quebert e Nola, uma rapariga de 15 anos). Quem terá morto Nola? Terá sido Harry, como as pistas sugerem? Marcus, não acreditando na culpabilidade de Harry Quebert, lança-se numa investigação com o fito de inocentar o seu amigo e encontrar o verdadeiro criminoso...
O "mistério" a resolver não é desprovido de graça e interesse, ainda que as muitas voltas e reviravoltas (que poderão deixar preso o leitor apenas interessado na história) nem sempre sejam muito elegantes. Na minha opinião, o enredo tem alguma incongruências, aspetos forçados (especialmente os que no final servem para enquadrar a solução do caso), e também acaba por ser um tanto ao quanto monocromático no que se refere à informação policial (a investigação constrói-se quase exclusivamente de depoimentos). Este policial podia ser bem mais intenso se tivesse metade da dimensão - o mesmo é dizer, se tivesse menos "palha" (refiro-me, por exemplo, à exploração piegas da história amorosa, aos aspetos ligados à escrita do segundo livro de Marcus, etc.), que outros leitores poderão tomar (o que é perfeitamente legítimo) como um "colorido" extra. Além disso, não posso dizer que tenha apreciado o tipo de escrita, demasiado direto e terra-a-terra, sem subliteza (o que talvez lhe justifique parte do sucesso); o tipo de humor, excessivamente pobre, também não me agradou.
Como já escrevi, as duas figuras centrais de A verdade sobre o caso Harry Quebert são escritores; porém, no livro de Joël Dicker estão praticamente ausentes as referências a autores reais (nas cerca de 700 páginas do livro, que na aparência tanto falam de literatura, apenas contabilizei quatro referências a autores - Melville, Hemingway, Jack London, Arthur Miller; é como se escrever fosse um exercício independente de toda a tradição literária, um ofício sem qualquer sustentação intelectual). Quebert é descrito como um dos nomes maiores das letras americanas, autor do consagradíssimo romance As Origens do Mal; considerando atentamente os vários excertos dessa pretensa obra-prima que vão aparecendo aqui e além (mas também pelas "lições de escrita" sobejamente banais que pontuam o texto), não pude deixar de ficar um tanto baralhado com a mediocridade da escrita do personagem Harry (o tal singular romance mais não é que uma historieta de amor cheia de lugares comuns, ora a pender para o dramalhão patético, ora para o lirismo  lamechas). Por sua vez, Marcus Goldaman é descrito como, após um primeiro romance aclamado por toda a crítica, a "nova coqueluche das letras americanas" (o que apenas parece significar espaço mediático, fama, glamour, riqueza...); porém, mais uma vez, os excertos da obra que está a escrever (um texto de jornalismo literário, imagino eu à semelhança do texto de Truman Capote A Sangue Frio) não justificam essa aclamação, uma vez que são, novamente, de uma certa pobreza literária... Outro aspeto que Joël Dicker descreve - com ironia, é certo, mas talvez pouca distância - é o mundo ferozmente capitalista (e portanto apenas atentas ao lucro fácil e rápido) de certas editoras.
Encontrei neste bestseller ecos do primeiro livro de "Millennium" (Os Homens que Odeiam as Mulheres): ambos colocam gente das letras (escritor, jornalista) a investigar crimes (desaparecimentos e/ou homicídios) ocorridos no passado; os protagonistas vivem um período de crise (a crise da página em branco em A verdade sobre..., uma quebra de prestígio resultante de uma reportagem mal investigada em Os Homens que...); etc., etc. No entanto, comparar este livro aos de Stieg Larsson parece-me a todos os níveis desajustado, uma vez que o autor sueco consegue não só construir boas narrativas (ainda que o segundo livro seja, na minha opinião, menos conseguido), como escrever bastante bem, com alguma profundidade psicológica, com caráter. E isso faz toda a diferença. Mais absurdo ainda é ver na escrita de Dicker ecos de Philip Roth!
Termino com a reflexão (muito básica, aliás) de Quebert acerca da literatura, acima transcrita: «Um bom livro (...) é um livro que lamentamos ter acabado de ler». Se este fosse de facto o critério para avaliar a qualidade de uma obra literária, então receio bem que A verdade sobre o caso Harry Quebert seja um livro bastante medíocre para este leitor (que a chegar a meio esteve mesmo para desistir, desiludido). Esta formulação, claro está, peca por prosaica; ou então, é de um insustentável relativismo, pois se a qualidade de um livro varia consoante o leitor (uns gostarão, outros não, uns sentirão o que nos é dito que o leitor "deve" sentir, outros nem tanto), então é impossível pronunciar-se sobre a qualidade de qualquer coisa. Pessoalmente, não acredito que os melhores livros são os que necessariamente agradam a um maior número de pessoas; se assim fosse, as referências literárias do nosso tempo seriam os autores da moda, os que vendem milhões de livros e estão nos escaparates dos hipermercados, ao lado do detergente e do bacalhau...

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